Sábado, Fevereiro 25, 2012

é, ainda tenho uma cisma com esses vinte e seis. uma cisma que se ilustra com um vestido nunca usado, um vestido de quase aniversário, de pontas, umas marcando bem a voltinha da coxa, bonito, todo preto, umas alças que realçam os ombros, os seios, as curvas, que precisava sapatos novos, mas que hoje está ali, pendurado no cabide, meio esquecido, no meio de mil outras lembranças, meio amarrotado, inédito, etiqueta idêntica ao do dia em que o busquei na loja. e lembro direitinho. o lenço indiano cobrindo a entrada, o cheiro de incenso, o grande espelho que mostrava o corpo inteiro, e mais as manchas, os defeitos, as olheiras, a expectativa de tudo vir a ser. e ainda os ganchos de madeira onde pendurei minhas coisas e tudo o que ainda não tinha sido vestido: na verdade, uma peça ou outra daquilo que se chama algodão cru. o vestido era a marca de uma viagem também nunca feita, uma viagem de passagem jamais comprada. uma viagem que aconteceu na cabeça, mais nada, e acabou numa escadaria de uma rua que não sei como se chama, quase perto de casa, onde depois abriu um restaurante bonito, a última vez que comi orapronóbis. mas era uma cena cinematográfica, a chuva, a escadaria de pedra, eu com o telefone nas mãos, sem saber para onde olhar, sentei-me onde molhava, abri a sombrinha, ainda molhava, esperei o ônibus, que demorou, lembrei que o telefone molhava, o telefone molhou mas ainda funcionou por mais uns dois anos, até que ficou ele também esquecido, trocado por um novo, cortesia da operadora de celular. a viagem se interrompeu com a chuva, mas chuva não é coisa de interromper, chuva é coisa de fazer nascer, e fez. nasci mudando-me dali, das ruas de pedra que não eram itabira mas brilhavam com sol, chuva, com névoa, brilhavam sempre, brilhavam em mim. fui ou vim embora, não sei, saí. fugi. deixei a casa e a impressão de janelas que olhavam um olhar inexistente, um chegar feito assombração, coisa que não havia, os olhos me enganavam. deixei a casa, voltei à antiga, que virou nova, e tudo novo veio para mim. de tanto ir-voltar, percebi-me ponto fixo em tantas direções possíveis. mas não posso tanto, bem sei. o poema que danilo me mostrou hoje falava justo disso, de circularmos, querermos ser tanto mas podermos ser um só. e bem isso já significa ser demais, pois nem damos conta de sermos nós mesmos, querendo sempre tanto! sou pouco, bem sei; busco muito saber meus limites, que pena, saber meus limites, quando deveria experienciar os meus deslimites. o tempo passa e enquanto isso tento saber onde me fixar, outra pena, por que me fixar, por que saber assim tão precisamente o que querer, o que não querer? uma pena, grande pena, quando o que poderia acontecer era eu me sentar a escrever para lembrar, e também para prever, para não ficar nada de gasto, para não ficar nada de lastro, para não ficar nada de triste. e não ficou, não triste, mas nostálgica, a lembrança de tudo. de tantos dias azuis, de tantos dias que brilharam, tanto trabalho no espaço fechado de mim, de tanta mão estendida aos outros, de tanto estender-me a mim. as cores se misturam e me fazem apagar o que tinha de cinza, e a lembrança mais nítida agora é a de bolhas de sabão na rua são josé, domingo a tarde, uma iluminação bonita, dia de despedidas. a pensar em datas que marcaram, penso também que crio nesse tempo nova marca: e me preparo para nova partida - um novo retorno - para o novo que sou hoje. amanhã não saberei.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

2011  foi um ano mais de estar. começou com chuva, como 2012 começa, e com praia. estive no mar por duas vezes, pois também fui ao rio, ao evento que já é parte da minha agenda, o encontro de literatura contempoânea. cogitei ir para vários lugares, e só cogitei, porque estive-continuei em Itabira, ouvindo as vozes familiares, ouvindo os conselhos, ouvindo os pedidos de estar. dando aulas, que oscilavam em número e valor, pulando de turma em turma, quando deu, quando não deu, com e sem aborrecimentos, e também com tantas alegrias, amor criado e partilhado. lourenço, meu querido escritor, me acompanhou por mais um ano, e estive com ele a revisar, a re-revisar, a conhecer ilustrações, a opinar sobre capas. como eu gosto desse trabalho! pulei daqui-prali, fiz concursos. um deu, outro não deu, e assim foi. estive em ouro preto tantas vezes quanto quis, revi as pessoas, mas também o lugar. o sentimento de estar lá é encorajador e também nostálgico, contemplativo. quando me pego olhando ao longe e vendo mais o de dentro, eu paro, respiro, e mantenho o olhar, tento esmiuçar o que vem em seguida, cogito, repito, crio, invento futuros e desabo o presente. sim, estou. estou lá e aqui, estou em todos os lugares em que pode estar meu coração, as pessoas que desejo perto (e que de fato estão, elas sempre estão perto). cogitei novo curso, comecei um na educação (finalmente), e quero continuar a empreitada, voltar à universidade, embrenhar-me em literatura novamente. não a minha, mas a dos outros. para a minha, tive um propósito recentemente do qual ainda preciso costurar as beiradas. é que encontrei umas cartas, umas cartas bem bonitas, que um dia tiveram resposta. e será que eu, tantos anos depois, conseguiria reconstruir tais estórias? eu já fui tantas, agora eu bem poderia ser mais uma que olha a um si desconhecido, um si que ficou lá atrás, com seus quinze anos. um si que ainda me acompanha mas em nova modelagem. um si travestido. 2011 me desafiou olhar o passado e trazê-lo para o hoje, me reconstruir afetivamente. 2012 me desafia olhar o futuro, olhar lá adiante, lá onde eu nem sei que rumo tem, ou por que direção principia. e aqui estou, e o que faço? vejo a chuva, e reviso mais páginas: um diário. 

Sexta-feira, Dezembro 16, 2011

Viver de poesia, de Elisa Lucinda.

Há tanto o que fazer com a poesia
que eu quase não dou conta das tarefas.
Trazê-la em estado de circulação
é mais que assumi-la sangue
de tanto me afundar no mangue
decorei o caminho do emergir
a volta do desmaio
do cair em si em mi
e mais todas as notas do percurso e escola.
Há tanto o que transar com a poesia
que tenho estado com ela sem nenhum projeto de anticoncepção
falá-la então é o VT desse sexo explícito de procriação
com direito a prazer e gozo em cada dobra de rima
Trazendo-a em estado vivo exerço a alquimia
de atropelar o efêmero
com o doce trator da perpetuação
agarrada aos motivos eternos
dos versos que eu escrevi
latejante exposição em estado de música e fotografia
é o que faço aqui
e aqui chego com meus cães:
sigo tudo de acordo com as ordens do Deus poema
que é o fiel domador.
Corro, sento, busco ossos
e inda faço gracinhas
elefante, golfinho, leão, macaquinho,
sopro, tambor, teclado, cavaquinho
vou bebendo vinho.
Há tanto o que fazer com a poesia
Há tanto o que namorar com a poesia
Há tanto o que compreender com a poesia
Há tanto o que viajar com a poesia
que eu com esse excesso de bagagem
passo na cara do vigia
de mãos vazias.
Mas tamanha é a magia
que toda a muamba que ninguém via
agora se esparrama no palco:
ela rainha, galinha
sambando no pedaço,
minha rainha poesia
e de salto alto.

(Rio, verão de 1991)

Sábado, Dezembro 03, 2011

Para ser reescrito.

Essa última noite carreguei os olhos, tirei-os da tomada e eles despejaram memórias, lançando-as ao travesseiro, à parede nua, remodelando a sombra do roupão que se projetava, no cabide improvisado no espaço mínimo. A porta triscou o piso gelado, enquanto eu entrava furtiva, madrugada pelo início, a encontrar o quente dos tecidos, e as sombras, e a parede nua, e o travesseiro. Mas vieram as memórias, impedindo-me o sono. Grande mistura de memórias, que por pouco não me tiram a razão. Pois o que eu via, feito Bandeira via o beco, era o branco, tanto encardido, mas não menos dolorido. O branco que inclusive se toca. Pois houve o momento em que eu beijava os travesseiros, e sentia que o branco começava, e ele se instaurou. O branco começa na falta. Estende-se ao estômago, que não come, mas se atiça. Se come, é pouco o gosto. Não descansa enquanto não torna o de dentro, o de fora, tudo, em imenso ele mesmo. Faz-se às cegas, e ordena que se tente preenchê-lo também às cegas, e em vão, pois o branco não nos permite ver, senão por meio de suas lentes que refletem, mas pouco mostram, e supõem olhos livres. Supõem. E o fenômeno que começa nos olhos vai até a ponta dos dedos, que parecem tocar, mas não alcançam. Que se antes falavam, balbuciam. Até a ponta dos pés, que parecem firmar, mas não se fixam. Que ensaiam o salto, mas se arrastam. O branco nada domina, mas cerceia a liberdade, a iniciativa, o pontapé. Oculta outras cores, que, de tão presentes nele, se fazem, também, branco. Escondi bem as orelhas, tapei os buracos do nariz: sem um pouco de ar, sem asperezas que não a própria vontade de voltar a ter ar. Tapei os buracos dos ouvidos: sem um pouco de som, os anseios por um gemido, uns passos de lagartixa, um voo de mosquito. Escondi bem os olhos: no obscuro de mim, afago o branco. E peço que venha a escuridão.

Sábado, Novembro 26, 2011

Sim, Daniel, estou ranzinza. Cinza. Igual a tantos. É que chove dentro e fora de mim. É que chove muitas vezes por dia, e algumas vezes à noite também. Eu elaboro respostas e acho que as digo, mas não digo, e elas ficam assim comigo, eu achando que todos sabem, ninguém sabe. E volta a chuva. Mas isso é só um preâmbulo.

O interessante de estar constantemente em estado de chuva é que se está sempre cheio de tudo. Umidade 100%. Mais interessante ainda é perceber blocos imensos de coisas pesadas, prestes a desabar, iluminando relâmpagos e atiçando barulhos. A chuva anuncia, chama, alerta. A chuva tem o poder interessante de seduzir uns que se molham a valer, se divertem, gargalham e soltam gritinhos, sentam-se por vezes nas escadarias de praças a esperar a enxurrada que teima descer as mesmas escadas, e a molhar os espaços entre a roupa e a pele, a parecer um banho forçado, que também pode ser sujo, fedido, sabe-se lá o que pode ter na água além de água!, e de espantar outros, que se protegem, muitas vezes em vão, sob superfícies pífias, tolas, mas também às vezes pink, ou xadrez, ou de cabo douradíssimo, lindo na promoção de quinze reais. Mas quando chovo prefiro um lugar único. Prefiro chover até encharcar, inundar, até não caber mais água. E me guardo, enxurrando demônios e angústias, a vê-los ocupando outros espaços, até que cesse a ventania. Mas qual, dura! Dura a chuva, dura a ventania. Tenho que prender fortemente os cabelos, para que fios teimosos não me irritem olhos e nariz, mas deixar os pés soltos, até que estejam à beira de congelar, e ver os movimentos de dedos e a pequena rachadura - sim, sempre há mais espaços a rachar - da unha teimosa que não sara, e cai, e cresce, e racha, dando novo formato ao dedo, nova impressão de branco. E chove. Chove sem barulhos externos. Chove o silêncio, com vontade. Chove o dia a cair, chove a impressão de fome, de fome de dias novos, de fome de outras tempestades. Chove a falta e a sobra. Chove até não mais poder.

O que clareia é o sorriso cheio de margaridas, daquele jardim circular, das músicas dos bítous. É.

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

Na padaria


Uma padaria pode ser mágica. Entrei pisando duro, os joelhos rachados de tanto baterem rua afora, até que vi o sonho, palmo e meio além das bombinhas que eu já tinha escolhido desde o início da subida da rua. Um sonho de chocolate. Peguei um e meti-o entre as bombinhas, sujando as cebolinhas e os pedacinhos de presunto de chocolate. Foram-se logo as bombinhas, levíssimas, de uma massa molinha; regadas a acerola e aos barulhinhos dos que entravam, saíam, pegavam sacolas. E enquanto, já com o sonho em cheio, me peguei mordendo com cuidado, para sentir bem devagar o chocolate a rechear não mais o dentro, mas o fora do sonho, e meus dedos, escutava as perguntas vindas do balcão. Que diferença tem entre esse e esse? Qual o preço do brioche? Chegou a mortadela defumada? E peito de peru, tem? Aquele suco é de manga? Imaginei que delícia passar a tarde respondendo a essas perguntas, e a chamar a atenção para o delicado do açúcar que colocaram na cobertura dos bolinhos, e no desenho que alguém fez com a calda de cerejas, e o cuidado do traço do sujeito que escreveu "Parabéns" com letras e volutas para alguém que ele nem sabe que faz aniversário, e faz. Mas entra a menina, melindrosa, a pedir coxinhas, que a mãe, por sua vez, pede ao balcão. O que parece ser o irmão a acompanha, mexendo sem parar nas bochechas, feito uma casca de timidez. A mãe pede que todos se sentem, e sai a ver biscoitos de polvilho, enquanto os meninos dividem o salgadinho. Quando volta, o menino chora. Dói, mãe, ele diz, dói, 'tá doendo até agora. Mas dói desde antes de você ir ao dentista, Antônio! Dói porque você mesmo disse que no Mariano doeu, que no Glauber doeu, e aí é lógico que em você ia doer também. 'Tá, mãe, mas 'tá doendo muito. E a menina, a boca cheia de massa, fala segurando o guardanapo manchado de gordura. Ô, Antônio, faz uma coisa que eu aprendi: usa o antônimo. Qual é o antônimo de "Vai doer"? É "Não vai doer". Aí não dói. Entendeu? 

Eu entendi. É que na padaria, às vezes, a gente pode presenciar um momento de sabedoria.

Sábado, Outubro 29, 2011

eu não sou boa em artimanhas, nesses emaranhados do descobrir o que se...? quando muito, deixo algumas coisas por dizer, para experienciar o desdizer de que são capazes as palavras. quando muito. afora situações assim, digo logo, arredondado, embolotado, cheio de significados, prenhe de bofetões e carícias, subentendimentos - a habilidade, ou o efeito. e se assim o faço é porque acho mais bonito. assim, dizer e experienciar os efeitos do dizer: o modo, o entorno, os lábios e os ouvidos, a música, os sons sentidos. e gosto. o rubem alves andou dizendo umas coisas bonitas por aí, que me lembravam roland barthes, sobre o prazer do dizer, do ler, da experiência com a linguagem, bem bonito mesmo, para o dia da leitura, que já passou, sobre meninos que se encantaram com a odisseia. hoje não é mais o dia da leitura, assim como não é o dia de muitas coisas. mas é meu desaniversário, por exemplo. ou o seu, talvez. o de todos, quem teria nascido hoje? (não sei). e, pois é, eu sumi, como disseram vários, mas se sumi, por que estou eu aqui a escrever? para aparecer - apareci. chame-me o que quiser, aqui estou, a escrever o que me ocorre porque há tempos tenho mais ouvido do que falado, tenho mais lido do que tenho escrito. fiz uma prova que tratava justamente de sons e suas representações, e poetizei o dizer, não me aprovaram. lembrei uma história que ouvi, já deve fazer um ano, algo assim, do sujeito que poetizou a tese de doutorado, a banca de qualificação se descabelou (onde já se viu? na arquitetura!), e ele foi para Paris (Paris é uma festa) e por lá já não sei, mas imagino continue a poetar, para o desespero de quem o ler depois, lá na academia - que não é a de ginástica, senão um estica-puxar de teorias e remendos e parágrafos dependurados uns nos outros, para que se faça o que se quiser (sem poesia no dizer, crendeuspadre!). mas, aproveitando o assunto da academia, farei ainda até o início do próximo ano algumas ginásticas - a financeira, a do bom humor, a da br-381 e a da br-040 - para tentar alguma coisa que funcione - e estou tentando, sim, eu estou a plenos pulmões na subida da curva x recalculando trajetórias. bem, o que tenho já funciona, mas e... e... se eu voltasse a desarrumar tudo? e se...?

Sexta-feira, Julho 22, 2011

sopro tímido de voz.

faz 38 anos Luiz Melodia lançou Pérola Negra. faz 6 dias o vi cantar. faz duas semanas eu fiz vinte e nove. ontem contamos até sete. sete meses. sobraram duas aulas por semana nesses 15 dias de recesso. há ainda várias páginas a revisar do livro novo do Lourenço, trabalho que faço devagar porque me sinto muito mal. fiquei dois dias sem tomar banho, porque me sinto muito mal, não quero estar limpa. evidencio a sujeira para eu querer mais rapidamente me livrar dela, é uma estratégia. faz uma semana recebi duas propostas ótimas de re-encontrar amigos via nossos escritos. não quis responder com aquela vontade sorridente porque não houve muito sorriso esses dias, porque me sinto mal. respondi que sim, palavra mágica e doce, que abre jeitos novos. mas um sim também pode ser muito pouco. disse um sim cinza, todo mundo já deve ter percebido. deixo o inferno em mim. escrevo em minúsculas porque a maiúscula é mais corajosa, estou um pouco escondida, sinto. li que saturno está por aí trazendo transformações, basta que decidamos por onde começar. bobagem. encontrei o livro da maria zilda, justo sobre o que eu queria e que ela não me dizia. boa bibliografia, mas sobre áfrica. mia couto, escritor que muito aprecio. mas eu trago aqui. trago fundo. trago noll e hatoum. trago esses sujeitos e seus lugares, minha falta de lugar colore o resto. chamei alexandre para rir comigo de meu projeto, isso deve acontecer, é o que eu quero que aconteça. mudar de lugar pode ser também endireitar essa poeira das prateleiras, os livros que se entortam em uma torre mal construída. ando mais parede rachada do que nunca. ainda bem não tenho visto tantas pessoas. recebi uma pilha de livros, coisa de que muito gostei, e fiquei uma pilha para ler todos, li dois, estou lendo. deu vontade de escrever.  me pediram textos, penso se ainda os tenho, se já me escaparam. ando sumida porque há muitas nuvens. tenho andado muito por uma cidade de que não gosto tanto, mas tenho andado. durmo pensando nos amigos, durmo pensando no que eles devem estar fazendo. estar. aquela energia de céu grande, e quase nenhum dinheiro, e conversas doidas sobre a vida, e mesa de petiscos. não quero esse passeio rouco de poucas conversas que valem a pena. não quero essa coisa cinza. o que me aquece é outra coisa. eu me aqueço é com liberdade. quero uma música, uma cerveja, e um poema. e quase nenhuma coerência. tenho ainda vários segundos, que poderei gastar como quiser. faz um minuto pensei uns versos de braços curtos e não pretendo encompridá-los. os próximos dias serão de palavras. mais dos outros que minhas. estou um ouvido aberto.

Terça-feira, Abril 26, 2011

há algumas noites, que não sei precisar, tenho tomado ciência (não sei se ainda aperto adoidado os dentes enquanto durmo, Fabrício disse que ainda um pouco, sim, mas estou em tratamento, ao qual não compareço há duas semanas, e gostei de não ter ido, dói menos, mas não sei se é por apertar ou não os dentes, tenho tomado ciência) de poemas inteiros indo e vindo à mente, versos que se desdobram em outros mais longos, e que encaixam e desencaixam, enquanto eu tento descobrir (e ainda não sei) se estou acordada ou dormindo. sei que havia umas palavras enlameadas de verdades, e outras coisas mais ou menos pegajosas, que não consigo recuperar, preciso, para essas coisas, de novos sonos, e novos sonhos. e tive muita matéria para sonhar nos últimos dias. é que sentimos juntos muitos momentos em luz baixa, baíxíssima, e comemos nos horários mais malucos, e dormíamos e acordávamos e saíamos e andávamos e víamos tudo. e nem estávamos tão longe. e vimos a água, andamos por entre as pessoas, e por entre nós mesmos. e percorremos trajetos tão bonitos e tão surpreendentes de tão simples para os olhos, e complexos para o sentir. ver é tão simples, mas perceber!? perceber, sim, sem educar os olhos, porque educar os olhos já é como vemos. temos que voltar à condição do neutro para podermos ver bonito, ver claro tudo. é que em "a paixão segundo gh" clarice lispector me disse duas coisas que quero comentar. que o estado de neutro, e que se deve buscar, é virgem de significado, é pré-significado, é o de antes, o sem palavra, o sem limite. mas se já é neutro isso não seria um limite? ah. e disse também que quando acontecem catástrofes, tristezas, coisas amargas, é porque o mundo e as coisas estão precisando voltar à condição de antes, de antes daquilo, de antes desse jeito, para ser de outro, de novo, ou ser igual, diferente. liberar os olhos para ver nos exige tanto, e nem deveria ser assim. é que esse estado de coisa neutra, de coisa sem nome que eu quero experienciar, acaba pedindo um nome, uma classe, uma categoria, um "curti" ou "não curti". mas por que não ser só experiência? por que a experiência tem que ter um nome, não pode ser apenas sensação? por que as coisas têm que significar pouco, como categoria, enquanto poderiam significar muito, como experiência? porque é um perigo. vejam o que digo: é um perigo a multiplicidade de olhares, porque pode fazer pensar. como é perigoso, isso. e como é lúcida clarice quando diz da volta ao de antes, da volta ao modo certa maneira harmônico, pré-catastrófico, de antes da queda, de antes do abismo. voltar não como um retrocesso, mas voltar como nova viagem, novo percurso que é, e que pode ser também perigoso. voltar para perceber as coisas de novo, e analisá-las, voltar para saber como ir. voltar que é também ir, ir a algum lugar. voltar pode ser grandioso. voltar pode ser sábio. eu voltei. ainda não sei como ir, mas tenho dado agulhadas. tenho ido, também, eu sei, porque tenho feito coisas. para algum lugar estou indo. estou em processo, estamos. e vi, sabem, vi uma máquina de ver. cheia de espelhos. e perdi os poemas todos do entressono, devem estar todos nos espelhos do meu vagar.

Segunda-feira, Abril 18, 2011

Hatoum


Milton Hatoum é de fato um escritor fabuloso. Desde "Dois irmãos", que li primeiro, e depois "Cinzas do norte", e o que terminei hoje de manhã, "Relato de um certo oriente", ando impressionada. O último foi o mais colorido, o mais diverso, o mais sensorial, o mais complexo romance que li nos últimos meses. Lembro quando eu ia a biblioteca do ICHS e lá havia "As vozes do romance", de Oscar Tacca, único volume que (até aquele momento) se dedicava apenas a vozes, de fato, sem rumar para conversas discursivas, para as quais havia prateleiras e prateleiras. E eu procurava algo como "As vozes do romance" para entender a construção do romance, antes ainda de querer me embrenhar pelos campos dos significados. E ainda assim esse volume não resolvia o meu problema que, à época, era Cristóvão Tezza e o seu "O fantasma da infância" (e do C. Tezza também li um recentemente, que foi "O filho eterno", muito diferente de "O fantasma...", mas com boa trama e ritmo), e hoje lembrei de O. Tacca porque soube, assim que terminei a leitura de "Relato...", que ele também não ajudaria a explicar a multiplicidade que Hatoum apresenta. "O fantasma da infância" narra histórias fragmentadas, sob pontos de vistas de personagens diferentes, além do narrador. "Relato de um certo oriente" convoca uma narradora a inventar, imaginar um ponto de vista que narrasse aquilo de que ela não poderia se lembrar, e que faz parte da sua infância primeira, até os acontecimentos que ela não viveu (e por isso são convocadas outras vozes). É uma espécie de narradora/documentarista que ao final revela seu papel no romance, mas, como é uma construtora de tramas, e não exatamente se dedica a falar de si (assim eu imagino), não revela seu nome (e houve quem se aborrecesse com isso). O que eu tenho mais gostado ao ler Hatoum são as surpresas que ele revela, e sempre as há, até o final dos romances. E adorei a tarefa de terminar de ler um romance, voltar ao capítulo inicial, e enfim compreendê-lo. Seria essa uma marca do Hatoum ou uma marca de um editor? Bem, isso eu não sei responder. Mas é uma beleza de literatura. Vale realmente a pena conhecer Manaus e suas vozes, que Hatoum nos apresenta, e nos desconcerta, tamanha beleza exaltada diante de coisas tão rotineiras. Obrigada, Milton Hatoum, por encher de beleza meus olhos de leitora. 


Dos romances, lerei ainda "Órfãos do Eldorado" e o volume de contos, "A cidade ilhada".

Vale comentar (mais uma vez) que a Companhia das Letras ganhou uma fã da série Companhia de Bolso. O formato é excelente, Companhia! Faça sim livros mais baratos para nós, que gostamos tanto de ler! 

Mais um comentário: quem é leitor de João Gilberto Noll, como eu, não se aborreceria com o fato de uma narradora/embrenhadora de histórias que fala tão pouco de si mesma. Ver pelos seus olhos pode nos dizer muito mais, e eu acho que é assim que fez Hatoum.

Só mais um: quando minha mãe viu comigo escrito em letras grandes um volume que trazia "Milton Hatoum", comentou: "É um de cabeça branquinha?". Eu disse "É". E ela, animada por reconhecer o nome: "Mesmo? Eu vi ele na televisão, no 'espaço aberto' , ele tem um jeito manso de falar...". 

Quarta-feira, Março 30, 2011

um achado no final do caderno vermelho

quem me vê, vê também o tal caderno vermelho onde eu anoto tudo e depois sinto falta dos lápis de cor ou da função "localizar" para saber onde está o que. no fim de contas acho tudo, porque os registros ficam também nos resíduos das sensações do escrever, então se acha. acha-se muito, quando se escreve. acha-se por achar mesmo, sem muita preocupação com os outros. acha-se também persuadindo, fazendo-se presente nas impressões dos outros; o que, além de perverso, pode também ser bonito. pode ser lindo ser lembrado, mas também é solitária essa coisa do dizer. cria uma expectativa. se alguém diz, tem que dizer sempre, espera-se com entusiasmo a palavra, essa coisa de poeta é rara. mas sem tanta firula, permito-me dizer: abri o caderno vermelho na última página. e o que se segue foi o que eu achei. não sei ainda como separar linha-linha, mas depois eu edito. acho que eu queria escrever uma coisa lânguida, mas o que saiu foi língua.

"Se por ora lírico, fora acidente: as palavras escorreram, fugiram-lhe das mãos e do controle do traço. Perdidas, ocuparam espaços antes brancos e delimitados - escorrendo-se por eles, num aspecto novo. E o poeta, pena, que poderia...? Assistir-lhes o risco e os deslizamentos. E em aparente descontrole, elas, palavras, deslizavam-se umas sobre as outras e misturavam-se - ao que ele, deslumbrado, espantava-se, fingido: linda dança das palavras, jamais repetida."

Vanessa sOares de pAiva. 5-6-10.

Sábado, Março 19, 2011

os tons dos dias têm sido pasteis de vento, com pouco gosto, uma angústia fina. assistimos a "biutiful", o último filme de alejandro iñárritu e acho que até hoje não consigo falar muito sobre ele. por isso mais pergunto que digo, mais cogito que afirmo. foi para mim um filme triste, apesar de não ser um filme triste, de fato. triste porque as emoções dele são fundas, como um coração que emite um som de pulso mais alto que os outros sons durante momento de abraço. triste porque me deixou sem saída, a pensar nos limites tênues que a cidade coloca entre as pessoas. limites que se fazem e desfazem. é tênue o que me separa, na cidade, daquilo que eu temo; de fato, não nos separamos. então por que a cidade insiste em separar, se a cidade une, abriga, a todos, em seu território? por que nos sentimos distintos daquilo que de fato somos? 

Quinta-feira, Março 03, 2011

Moonage Daydream

se ele me chama melindrosa, faço de conta que sei rebolar. grito, sapateio, defendo com marra porque assim eu sei pensar sobretudo o que amo. exijo, porque não suporto discursos vazios e palavras sem pretensão nem de voo nem de pouso. gosto das palavras que fazem desenhos porque ali, juntas, ocupam espaços, no ar, por terra, todo lugar é grávido de som-sentido. ele meneia a cabeça, diz eu sou difícil, eu sou teimosa, precisa nada disso, ô trem enjoado, eu sei, já me disseram isso. e daí? se quiserem brigar, juro que grito, desde o sonho: freak out in a moonage daydream. e se, desde o início, fosse preciso uma prova dos nove para saber onde é a dor?







Terça-feira, Fevereiro 15, 2011

saúde pública

1.
descobre-se facilmente que se pode não simplesmente ofuscar-se com a vida, com a beleza do dia, com o claro dos dias de verão; ofuscar-se de puro e mágico encantamento, isso em estado puro é lindíssimo. mas não, não é nada disso: é que depois de todo esse tempo de expectativa de bem operar os olhos (ainda que os exercícios de operação de olhos sejam feitos e renovados a cada manhã, ou a qualquer momento, ou a cada nova maneira descoberta de ver as coisas, a veracidade tão opaca das coisas) aumentou o grau do astigmatismo e, se já havia problema com a percepção do limite das coisas, agora acaba de ser descoberto o seu agravamento.
2.
e quanto à sua cervical, menina!, minha filha!, como você consegue passar as noites se mordendo desse jeito a ponto de se doer toda - maxilar, dentes, gengiva, boca, pescoço, e pontos esparsos (que só quem sabe torturar conhece bem, mas esse é um comentário meu, não dela) sem se cuidar, travadinha desse jeito? nós vamos fazer raios-x, ver como andam suas articulações, ver o que é que está acontecendo com essa boca ótima, de dentes ótimos, com perfeito espaço e sorriso largo, mas de péssimo hábito - o de ranger dentes. você sabia, menina, que isso é um problema neurológico? há que se descobrir a origem desse problema, o que é que desencadeia o seu vício para, aí sim, tratarmos de maneira eficiente. (oh, céus, tenho um vício - e diagnosticado!)
3.
no raio-x a moça me alerta: se houver balas perdidas, agulhas, pedras, objetos pontiagudos e esquisitos de maneira geral, serão descobertos. as fotos ficam prontas amanhã. eu já sei de tanta coisa que passa na minha cabeça, e mais um monte que eu não posso identificar. mas será que algo ficou ali, alojado? ainda bem que existem máquinas de raios-x. e... incrível!: quando a máquina gira pela minha cabeça e registra as imagens, eu lembro os dispositivos do cérebro eletrônico de Alphaville, do Godard, indo e vindo, enquanto o protagonista é interrogado. minha situação ali é passiva, bem diferente da dele.

Sábado, Fevereiro 12, 2011

Aula

- Uma pulga! A gente viu uma pulga no microscópio! - e foi assim ela chegou do primeiro dia de aula. - Vimos as patas, as garrinhas... Depois foi apontar os lápis, achar um livro de geografia nas prateleiras, uma imagem do mundo. - Como é que se dispõem as partes de terra e as partes de água nessa bola que eu desenhei? Observa as linhas. - Onde é que ficam os pinguins? - Nossa, olha até onde tem gelo! Verificamos com gosto as cores. -Cuidado na hora de abrir, vão cair os lápis. - Eu sei! Quantas vezes eu abri caixa de lápis pra você? Pausa. - Ah, até que enfim. Eu precisava do amarelo para completar meu sol.

E muitas são as surpresas simples, as mais bonitas de ver, um orgulho só.

Segunda-feira, Janeiro 31, 2011

erótica

... é que enquanto ele me dizia coisas, e me envolvia em bolhas de som e significado, me inclinava a alcançar seu peito e pelos com meu mamilo, a perceber-lhe as curvas e as saliências, os pontos de maior calor, as ondas de perfume - a compreender o inclassificável da linguagem, numa cadência leve, bem leve.

... e se eu o abraço fundo, parece mais que eu abraço a mim.

Sábado, Janeiro 29, 2011

Na minha casa demorou muito a ter um aparelho que reproduzisse LPs. Ouvíamos fitas cassete e o rádio, que nos anos 90 reproduzia loucamente a dance music, e eu ligava, ligava, pedindo Guns`n`roses - e Axl Rose ainda era um cara bonito. Mas ouvir LP era muito diferente. Houve a vez em que troquei um cd do Raul Seixas pelo LP Led Zeppelin III, e voltei cheia de orgulho pra casa, a cogitar que ruídos viriam permear Tangerine, e eles havia. LP que sumiu depois de uma temporada na república em Mariana, assim como meu ímã de A clockwork orange, da geladeira de Juiz de Fora, e minha gata Nina. Lembro que na casa de Fu eu escutava a trilha de O mágico de Oz, The Wall e O papa é pop, indiscriminadamente: era meu gosto musical se formando, algo assim. Lembro que na casa de Fu descobri o que significava a palavra trottoir, li Christianne F. e parte da coleção dele de José de Alencar. Fabrício tinha (e tem ainda) o GLM, que eu escutava, e também costumava trazer pra casa, além de Seventh son of a seventh son, que escutamos ontem mais uma vez. Meu primo Marcelo - que deve ou estar silkando coisas por aí ou em algum encontro de motociclistas, ou casou, não sei, sumiu - me mostrou o Simples de coração e um dia meu pai chegou em casa com Filmes de guerra, canções de amor. Numa viagem a BH com o pessoal da escola, voltamos gritando - e quando fui morar com a Flávia, até nos lembramos disso -  a letra de Ouça o que eu digo, não ouça ninguém - eu tinha 15 anos e escrevia poesia, e achava que Além dos outdoors era a minha música favorita, apesar de sentir ímpetos de chorar com Shine on you crazy diamond, Parabólica e Dia branco, também indiscriminadamente. Sweet begônia foi o nome de um projeto meu das aulas de informática e Parabólica está no nome desse blog, mas isso já foi contado em outra captura. Mas, sabem? Toda vez que eu ouço alguma coisa que me remete a histórias das mais antigas, a história volta inteira, e eu me emociono de novo - deve ser eu mesma me ressignificando, me atualizando, um f5 de estado emocional. A música faz isso com a gente, eu acho que até mais que os livros. Quando eu releio um livro ele me diz OUTRAS coisas, já sou eu nova leitora, a se impressionar de outros modos com as mesmas histórias, já percebidas por outros prismas. Mas se sou eu a ouvir o mesmo disco, se sou eu a relembrar as capas do Iron Maiden, quando eu passava e repassava procurando o símbolo da banda, ou tentava desvendar Todos os olhos, meu coração se enche de uma coisa misteriosa, coisa que sinto mas não alcanço, e meu corpo amolece inteiro. Eu recupero em emoção, emoção que já não posso mais tocar, pois meus dedos, esses sim, já caminhando para novas idades, apontam outras direções. Mas meu coração! Ah, coração, que me deixa tonta com suas guinadas pra trás e com o destempo que gasta a recalcular a rota pra dentro de mim. E eu me lembro. lembro ME. Coração que me mostra quem sou, coração despertado por outrem, por um som, um acorde, por um jeito de olhar as coisas que me lembro tão meu, e se eu não recuperasse isso, por pouco não perdia, ou me perdia, pra sempre. E se eu penso via coração, sinto que amor é algo como escutar a procurar ruídos - os próprios, os alheios - com agulha afiadíssima, ouvidos idem, e se encantar com tudo isso, com o amor, tanto!, de novo e de novo e de novo - e no intervalo entre um lado e outro, recuperar o fôlego.

Sexta-feira, Janeiro 21, 2011

abertura

há tempos não pensava em flores, em coisas que desabrocham, perfumam, existem em beleza. há tempos não pensava em reparar gestos, em rodear a observar detalhes de gente. há tempos não pensava haver companhia para as coisas simples, fazer parte de rotinas, estar presente nos momentos miúdos, passar para dizer oi pessoalmente, não pelo orkut, facebook, email, sms, msn, skype. poder passar para dizer oi porque há proximidade, possibilidade, presença. isso. há tempos não cogitava a presença constante, sentimento de companhia, de pertencimento a um lugar, a um ser-estar. que coisa mais simples. que coisa mais bonita. que presença rica, cheia de importância, sem contar importância alguma! eis a vida, plena, tão aqui, cabível, se mostrando inteira, sem dúvida nenhuma, sem muito esforço. tão aqui!

Domingo, Janeiro 16, 2011

flashes de janeiro

Allyson, meu companheiro de viagem e amigo viajeiro de muitos anos, não caiu na tentação de olhar pra foto. Esse é meu motorista alto padrão! nosso plano era seguir até Dunas de Itaúnas, mas aí nós chegamos a Vila Velha, reencontramos as pessoas, a Ponta da Fruta, Juliana nos recebeu, e... acabamos ficando por lá. 
A gente esteve na praia de Bacutia, uma das que acho as mais bonitas da região. Essa praia, salvo engano, é parte da Enseada Azul, Nova Guarapari.



Companheiros de viagem.
A foto com o bombom é um clássico de quem vai a Garoto. A competição com as crianças para poder tirar a própria foto é feroz.

Encontrei Danilo e afinamos os projetos para 2011. Aquela velha conversa sobre a vida... e blá, blá, blá. Teve café, queijo, almoço e Brahma. Porque daquela porta pra dentro é um reduto de Minas Gerais em terras capixabas. E tiramos a seguinte conclusão: falar sobre a vida é remexer em baú de fundo fundo.

Esse foi um dos meus tons da viagem. Uma saudaaaaaade de quem ficou! E, chegando... uma saudaaaaaade da maresia... 

Reencontramos Cíntia... no dia da moqueca da despedida, num lugar ótimo em Vila Velha. 

E o casal dos velhos tempos se reencontrou também.



Tentei tirar umas fotos (e o carro em movimento) dos morros capixabas, antes da divisa com Minas Gerais.

Até que a gente achou esse lugar, que mais parecia Minas Gerais, com café e tudo. Mas ainda estávamos no Espírito Santo. O café de lá é uma delícia. 

Allyson aproveitou para meditar...

 
E eu viajei mais um pouco.

no flashback

para um flashback, bem, ainda dá tempo, porque só depois de uma viagem a gente afina as resoluções pra adiante. 2010 foi um ano meio tumultuado, sabem? primeiro porque eu deixei minha casa ótima em Ouro Preto - ótima até mesmo quando os pedreiros da construção do lado insistiam em dar bom dia, e eu tentava o gênero "nem aí", mas acabava dando risada (ps.: só a risada salva) - e voltei pra Itabira.
daí em diante foi começar tudo outra vez, porque a casa nova me desafiou a me reconhecer nos objetos, nas coisas que trouxe, nas pessoas que reencontrei, nas velhas ruas da mesma velha cidade que não me emocionou tanto de pronto, de imediato. os noventa porcento de ferro nas almas perduram, mas a cidade! o teatro em que pouca coisa acontece, as pessoas que também dispersaram, uma cidade que vejo em sombras de coisas que já foram, e que não se renovou. ou que, para mim, não, não se renovou, não se ergueu em imponência, imponência que acho já sonhei, sim, devo ter sonhado, não há mais. minas há, minas há muita, meu coração é de minas, mas meu coração de itabira não se aqueceu em itabira, preciso admitir isso, para não achar que sonho, que me invento nesse meu sempre lugar, meu lugar de errância, lugar de minha identidade, lugar que me diz sim, eis a sua identidade, continue, erre, não permaneça. meu lugar é só meu porque me diz: siga.
ele disse, eu não ouvi. fiquei. mais para me provocar mesmo, mais para me encontrar, mais para desabafar, ou desabar, e desabei: em trabalho. trabalhei um monte, três escolas mais substituições, aulas esparsas, alunos particulares... ufa! e eu gostei. conheci alunos ótimos, pessoas incríveis, que me ensinaram muito. saímos até no Diário de Itabira, meu caríssimo Prof. Mário e eu, numa matéria sobre o enem, e me diverti muito ao ver as fotos. foi legal. foram várias aprovações, notas boas em redação, coisas assim que me deixam animada. e também com aquela velha sensação de inquietude. é, essa é bem velha. ainda mais depois que fiquei num vaivém itabira-ouro preto até sentir meu coração abandonado de novo, uma tristeza daquelas conhecidas. 
mas antes disso teve viagem a viçosa, para mais um concurso que foi por pouco, bem pouco, como costuma ser nesses concursos: 0,7 em relação ao primeiro lugar para uma vaga de prof. assistente do coluni/ufv. também brasília, de que gostei muito. brasília e aquele céu todo, lindo de morrer, coisa nostra. o concurso que fui fazer lá, bem... não deu certo. mas encontrei giu, alê, mermão... foi ótimo. teve viagem ao rio de janeiro, para um evento de literatura, para encontros literários, nada de velhos encontros. velho encontro rolou mesmo em são joão del rei, onde revi alex e atualizamos as histórias descabidas que bem sabemos contar. alex que esse ano foi candidato a deputado federal, meu queridíssimo amigo de tantas conversas desde os tempos de juiz de fora. não deu dessa vez, alex, vejamos as eleições municipais. mas são joão del rei também teve motivo literário, um evento excelente da ufsj, onde conheci éderson, um gaúcho que me atualizou a respeito de um dos projetos da furg que toca também a produção de joão gilberto noll, meu eterno intrigante escritor do meu personagem favorito: ele, sem nome, viajante, viajeiro, em trânsito. éderson que também escreveu um poema para mim, sobre jeitos de falar, de que gostei muito, e guardei.
as intocáveis fizeram 14 anos, recebi minha homenagem pelos cinco anos de formatura, foi muito lindo e muito molhado, foram muitos chafarizes e muita bagunça, como sempre, e como sempre ótimo. ali sim muitos encontros maravilhosos, que tanto prezo, em minha eterna casa, minha querida república de mariana-mg.
carlão fez 30 anos (das muitas festas de 30 anos que virão por aí, não é, amigos?) e estávamos lá, felizes da vida, comendo bombom aberto e lorotando até. 
fabrício me procurou, me achou, e nos achamos, mais de dez anos depois, e ainda estamos nos achando, porque essa vida é de eterno procurar e eterno aprender. mapeando bem as rotas, saberemos ser juntos.
2010, que começou em guarapari, terminou com chuva, e meu reveillon foi em itabira. aprendi uma receita de pão ótima (que prometi enviar a danilo) e também de lombo assado temperado com alecrim. queria que meu 2011 por completo tivesse gosto de alecrim e cor de laranja, para que muitas alegrias possam vir. e virão, eu sei, porque eu comecei esse ano rindo a toa e prometo continuar em estado de risada, e darei as mãos a todos que caminharem comigo, e a todos com quem eu puder caminhar. 

Domingo, Dezembro 19, 2010

superviva

nas arrumações de domingo, encontrei uma folha solta de uma agenda de 2006, uma data e um poema. eram 10/01/2006, e o poema é o que segue, uma celebração ao verão:

Superviva

Eu estive no sol,
sei como é o sol,
corri na areia e vi o final da tarde, o dia caindo.
Eu vi e digo que os raios podem também ser azuis.
Imagem sem reprodução, o ocaso é ao vivo:
as cores do céu são difíceis de transformar em pintura,
altura, racio-passio-nal.
Superviva, essa idéia ampla de céu e cor.
Salve a palavra mar, a palavra mar, que não precisa nada,
é preciso só superviver,
sol superviver.

vanessa soares de paiva.

Sexta-feira, Dezembro 17, 2010

Ontem peguei a sessão de meia noite de Kramer vs Kramer. Mas aí o filme me fez pensar em alguma coisa que eu ainda não tinha pensado sobre ele, mas sobre a qual ando pensando (por culpa de Milton Hatoum): timing. 

Meu irmão mais novo ri de mim porque depois que eu vi uma vez Project Runway eu vi outras vezes também. Ele se pergunta por que alguém como eu se interessa por isso, e quando eu digo "alguém como eu", não é menosprezando o pessoal da moda, mas é que eu não levo jeito para tecidos e sapatos. Primeiro porque eu tenho um pé - um não, dois pés -  42. Quem tem um pé, ou dois, com esse tamanho todo não se dá ao luxo de escolher sapato. Compra o que tem, ou o mais próximo do que intentava comprar. E quando eu vou a uma loja (especial) para esse fim acho ótimo. Primeiro porque nessa loja em que eu vou 36 não tem vez; segundo porque o vendedor sempre me diz: "mas veja bem, você tem pés finos, ficaram lindos", e eu amo o papo do vendedor; terceiro porque sinto que só lá tenho autoestima, hahahahahahaha. Para mim, quem calça até 39 é um abençoado - em qualquer loja acha tudo o que quer. Ah, e continuando o caso, é que eu sou bem desencanada para me vestir, eu uso sempre o mais confortável, e, se isso não acontece, logo me aborreço - e troco. O interesse por Project Runway é o seguinte: o sujeito tem que entender o tecido, o movimento que o tecido proporciona, com o que ele combina, escolher a cor, o formato e os cortes, os acessórios, pensar em conjunto, fazer acontecer uma roupa e ainda ter uma explicação para o que fez (bem, pelo jeito é para o que sobra menos tempo). O caso é que, para o sujeito que cria uma roupa, bem, ele tem que imaginar também como ela vai ser mostrada, no caso, numa passarela. Que cores? Que cabelo? Que mais? E isso me faz pensar a construção das coisas. Partir do tecido, ou de uma ideia, ou de uma modelo, ou de uma exigência, ou de uma experimentação de materiais, e criar um todo que faça sentido. Pré, durante  e pós criação. Isso me interessa bastante, e, claro, não estou pensando mais sobre roupas. Meu irmão vai continuar rindo, porque, por mais que eu explique, ele acha que é só uma coisa de mulherzinha que as mulherezinhas fazem, e pra ele deve bastar. Eu acho graça, ok, e mudo de assunto. 

O caso de Kramer vs Kramer é que o filme tem um ritmo maravilhoso, bem equilibrado. O foco não foi exatamente mostrar a decepção do sujeito que perde uma causa em um tribunal. Não, não foi. Era o caso de mostrar, com os olhos e as cores tão opacas, que havia desejo, que não se realizou. Não se realizou? Que coisa maravilhosa. Porque tudo o que é de se descabelar é rápido: o encontro com Ms. Kramer, quando ela decide que quer a guarda do menino, a demissão de Mr. Kramer, a sentença do juiz. Mas o que importa é lento: a saída da mulher de casa, Mr. Kramer correndo com o menino para o pronto socorro, o olhar de Ms. Kramer enquanto o ex marido é interrogado, olhar de Mr. Kramer quando ela é a interrogada. E, juro, para mim, ainda, a melhor sequência do filme é mesmo ele correndo com o filho para o pronto socorro. É de arrepiar. Isso é timing, porque não é todo mundo que está preparado para contar uma boa história.

Hatoum. É o primeiro livro (ai, que vergonha), que leio dele: Dois irmãos. Eu procurava Cinzas do norte, mas Dois irmãos era o disponível na Livraria da UFMG, e numa edição que achei o máximo, desde que li o João do Rio no mesmo formato, que é a de bolso da companhia das letras. Ah, companhia das letras, essa editora bem podia fazer livros mais baratos, as editoras todas, eu sei, são os atravessadores, a fila de distribuidoras, são os impostos, ah, é tanto!, e as pessoas leem pouco ainda. quem sabe bolsa livro?

Mas lendo Dois irmãos, que ainda não terminei, me ocorrem várias coisas. A que tem me deixado com coceira na nuca é o que o escritor põe em foco. Quem não quiser chamar escritor, pode chamar narrador, pode chamar voz. Ele parece um iluminador de palco que aos poucos mostra o caminho, mostra para onde devem ir os olhos e a imaginação do leitor. E umas coisas que parece vão explodir, ele simplesmente deixa pra lá, faz pouco caso descaradamente, elimina, pum, aconteceu, pronto, agora é outra coisa. e isso me deixa, como leitora, brava e inquieta: eu fico sem resposta porque... será que mais adiante haverá coisa mais bombástica? ou acaso haverá algo mais intrigante? caramba! é um romance e tanto, Dois irmãos. e a inquietação de leitora, palpite meu, é culpa do timing. 

Eu sei que não tenho timing. Não sei contar uma boa história. Eu leio os poemas que escrevo e (ainda bem que deles o Luiz faz música, modifica) acho que os pontuaria diferente, lhes cortaria as pernas e poria braços no lugar, como é típico dos imaginativos, cismáticos feito eu. Um aluno meu disse que tem preguiça de ler as coisas que escrevo aqui porque são extensas. E na hora pensei: além de extensas, estendem braços e caminham para outras direções que não a inicialmente provocada. Sei que isso é um problema, ou pode ser um. Não me espanto, nem me aborreço. Eu gosto é de contar, ainda que histórias ruins.

E pensar Runway, Kramer e Hatoum num mesmo pacote pode até irritar alguém. Mas qual seria a nossa tarefa de observadores de coisas, se não perceber que além das maneiras inusitadas, individualíssimas, há  conjuntos, padrões, em tudo? Os estilistas de Runway querem mostrar-esconder, costuram, escondem arestas, Kramer quer e não deve querer, por que querer sozinho?, os personagens de Hatoum, Yaqub, Omar, Halim, Zana, são escondido-mostrados por um olhar de menino que ainda não se sabe, e nem ele sabe, filho de quem é, por que ali está, mas olha, diz, revela, esconde. continuo olhando, olhando muito. uma hora dessas eu vejo.

ps. Ainda não comprei Cinzas do Norte.

Terça-feira, Dezembro 07, 2010

Love will tear us apart

Love Will Tear Us Apart
[Ian Curtis/Bernard Sumner/Peter Hook/Stephen Morris]

[Performed by Joy Division]

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won't grow
And we're changing our ways
Taking different roads

Then love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

Why is the bedroom so cold?
You've turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect runs so dry
Yet there's still this appeal
That we've kept through our lives

But love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there's taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good
Just can't function no more

But love, love wil tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

Quarta-feira, Novembro 24, 2010

no princípio era augusto de campos

Foi uma emoção verouvir o poeta Augusto de Campos, na Balada literária, evento organizado pelo escritor Marcelino Freire, e que ainda está acontecendo, com as ressacas literárias. Programação todinha AQUI.

Campos quis se definir, e citou E.E.Cummings, que disse certa feita ser um "small eye poet". A partir daí, criou a expressão que tenta defini-lo: "an ear eye poet, que faz poesia para ouver". Na mosca.

Terça-feira, Novembro 23, 2010

21 de novembro em flashes - Morumbi

O pessoal.
Na chegada.
Quase lá.

A chegada, bem tranquila. Pouco mais de seis da tarde.

Vista da lateral do palco - nossa entrada foi pelo portão 2.

Essa foi a visão do palco que tivemos.
calor do momento.

Na saída. Dá pra sentir o calor do Morumbi?

Foto tirada às pressas, enquanto Bia gritava: "Não vai dar pra andar separado, não, senão cada um vai pegar o seu próprio táxi". Foi mais prudente ter uma foto desfocada do que discutir com ela.




Quarta-feira, Novembro 17, 2010

hoje de manhã um filhote de andorinha invadiu meu pequeno espaço para toalhas e vasos de plantas. ouvi seu rumor de asas. insistente, insistente. continuei meu livro até me questionar: se eu leio sobre generosidade, por que não ajudaria o filhote a sair dali, encontrar a mãe? ele, que não come sozinho, ele, que ainda não aprendeu a voar? observei-o, alçava voos rasos. até que parou, andava por entre os diversos comprimentos de folha. tentei pegá-lo. resistiu, resistiu, mas não voou mais. o esforço era imenso, o corpo frágil. enterrei-o em um vaso desativado que, em definitivo, tornou-se sua casa. nem tive de pensar em esforço para não chorar, já tinha sido vencida. tão pequeno, as asas abertas para o nada.

piada interna

 
as pessoas nos querem por algum motivo. e muitas vezes demora a gente descobrir qual é o motivo nosso para querer os outros, para querer aquele quadro ali em movimento diante dos olhos naquilo que parece mais verdadeiro, e não em sonho, naquilo que tem de mais colorido, mais vivo, mais caloroso. às vezes, para os outros, à gente só basta estar ali, em presença, sem palavras. a presença seria, então, calorosa o suficiente para suprir lacunas e medos. suprir lacunas e medos, essa a tarefa do amor-presente? talvez não seja, não posso acreditar nisso. não nos suprimos, não nos completamos. vemos no outro um espelho nosso, vemos no outro um parâmetro para que possamos, em segundo movimento, nos perceber, isso, a nós mesmos. então eu vejo o outro e passo a me observar também, essa é uma lógica interessante sim. eu olho o outro, eu me olho. e entendo. o que vejo dos outros me faz construir meus próprios parâmetros. 

e eu dizendo assim posso parecer confusa, mas o que acontece não é isso. é uma sensação curiosa, que, em uma comparação meio confusa, essa sim, se tenta explicar no seguinte movimento: sem pensar o futuro, não pensou o presente: viveu-o como pôde. e, ao pensar o futuro, questionou o presente, abriu as comportas, e não comportou - nem tamanho susto nem tamanha quantidade de coisas. bonitas, sim, e a beleza foi exageradíssima. nunca tinha visto alguém que se assustasse com a beleza das coisas (que não fosse o poeta manoel de barros, essa a minha exceção). nunca tinha visto esse prodígio.

ontem abri as minhas comportas. exorcizei-me. meu cabelo ficou mais encaracolado, solto, com o tempo de tão fino e leve se levantou e voou em cachos. gosto quando fica assim, é justo quando não me preocupo em passar as mãos, prender em grampos, esconder-me. andei na chuva, corri para o cinema e vi um filme que todo mundo já tinha visto, mas porque precisava mergulhar-me em realidade em algum momento, pousar. sentei em roda em aula com alunas meninas tão cheias de ideias, mergulhei naquelas ideias ali bonitas ditas pelas mãos de fada das meninas jovens que se vislumbram mulheres quase, no caminho de. feito a Lua que, aqui em casa, ao pensar junto comigo, e dizer quase ao mesmo tempo, que não jogasse fora as cascas do abacaxi, que dariam bom suco; e ela me disse que pensar junto ao pensamento dos mais jovens nos faz mais jovens também, a felicidade da comunicação e do entrosamento faz a emoção dos dias. eu acredito nela, em sua bondade toda, imensa, eu acredito. andei, andei, comprei suspiros. fui à padaria e vi um moço bonito a esperar os fatiados. de pequena estatura, tinha escolhido mal o comprimento da gravata. vi também um antigo patrão que, em sua eterna timidez, que não mudara de dez anos pra cá, me cumprimentou de longe, baixou-levantou o rosto umas três vezes, falou uma palavra sozinho, outra para mim, e acenou, indo para o caixa. uns alunos que conheci em uma substituição de duas semanas numa escola daqui tomavam coca-cola na lanchonete próxima, me gritaram de longe, fazendo corações com as mãos (o coração que eu faço sempre parece que deu errado, não parece um coração, alguém precisaria me ensinar com paciência a fazê-lo), fiz um gesto de volta, fui embora rindo. ri, ri tanto, ri para mim, para os outros, que, claro, fiquei com dor de cabeça. serenidade é um inferno. voltei, desisti da aula de ioga de ontem (mas hoje juro, eu irei), comprei um salgadinho tamanho gigante, tomei um remédio para passar a dor e fiquei mastigando meu salgadinho, pensando justamente que as pequenas felicidades se fazem com o sim de todos os dias.

então, Deus, eu digo sim, digo sim aos dias, digo sim a todas as coisas que me disserem de amor. mas, sabe. não sei mais se acredito nas promessas de amor que, antes de tudo, são só promessas.

as pessoas nos querem por algum motivo. isso. aham. eu ainda não o descobri. e eu que pensei que fosse caminho, agora me sinto a própria encruzilhada. para os outros, não para mim. ou para justo aquele que, ao temer tanto o sim e a beleza, prefere o escuro das coisas, tudo aquilo que não se deixa ver. e se engole todo.

Domingo, Novembro 07, 2010

a mudança de hoje são objetos de prata: daqui para a frente, quero a minha proteção. 
um amuleto para a saga que é cada dia, sem muita explicação. não é assim que se acredita?

Quarta-feira, Novembro 03, 2010

Na mesma página em que leio o verbo "transbordar", de um minidicionário que há tempos eu não usava, e que estava guardado em uma bolsa antiga, esvaziada porque já mofava por dentro e por fora, encontro o seu endereço e uma data, com a observação: neste CEP até primeiro de julho. Isso faz sete anos. Desde então penso que você já deve ter feito outros treinamentos e morado em outros alojamentos que não aquele, contratado serviços de operadoras telefônicas em áreas de códigos diferentes, feito contratos de aluguel em lugares inusitados, ou até mesmo que tenha morado sem contrato, feito eu morei uns dois anos, e ainda hoje, em acordo provisório, ou até mesmo que já tenha uma escritura ou algo parecido com isso, seu nome estampado em documentos. Penso ainda que você tenha visto variações de onça e macaco, ouvido uma infinidade de barulhos e silêncios e conhecido muitas coisas também. Assim, separados, nos tornamos adultos, imagino que algumas vezes mais felizes que em outras, e imagino também que muitas vezes imaginamos (porque eu imaginei) como seria se, por exemplo, pudéssemos vivenciar as imaginações um do outro. Mas aí imagino também que a página do dicionário fosse outra, e outros os verbos, em combinações diferentes de sintaxe e semântica. No fim de contas, somos as palavras que acumulamos, página a página. Somos nós também dicionários dos mundos. Dos nossos e dos outros.

Sexta-feira, Outubro 08, 2010

parte rima em particípio.

em minhas melhores lembranças, eu estava descabelada

minhas maiores gargalhadas dei acompanhada

ando com saudade de uma vida desvairada

e ela não demora a voltar.

andei a ouvir poemas em bocas, descobri um primo aluno meu, andei pela noite e acabei voltando pra casa.

a ioga tem me mostrado como vão meus apoios.

posso dizer coisas sérias e com um tom adequado (por exemplo, em hiato há um hiato), mas sei que meus alunos já entenderam meus maus exemplos.

cu não tem acento, viado não dicionarizado é com i, não confiem na literatura, aquilo não é de verdade, esteja bem entendido, sabem o que efeito de realidade em literatura? nosso querido amigo é tão popular que vai ler um texto pra nós, já leram uma crônica cabeluda? arnaldo antunes e carlito azevedo são superlegais e a bertoleza, coitada, cortou as tripas, e guimaraens escreveu para uma noiva defunta (não, o defunto autor é outro).

ando com a cara, a coragem e a frase feita, estou sonolenta há duas semanas e quero passar um weekend com você.

a la twitter, lembrando caion

agora entendi o que é estar aos 48 do segundo tempo suando em bicas (tá calor, tá calor!) com mais um monte de aulas pra dar num pré-feriado (amanhã é aniversário de Itabira), parar, ouvir los hermanos e lembrar o que caion dizia: deixa a gente entusiasmado pra caralho.

bem, o palavrão é cortesia da casa, nem precisávamos dele.

e se fosse o caion dizendo seria: entusiasmaaaaado pra caraaaaaaalho!!!!!

Sexta-feira, Setembro 24, 2010


Parte um – manhã de terça.

Quando cheguei à cidade do Rio eram cinco da manhã. Procurei um café preto e sentei para ler o que trazia comigo: uma cópia da dissertação. Pensei: que resumo mesmo foi o que eu enviei? Procurei entre os papeis, encontrei: era um resumo que envolvia pelo menos uns dois capítulos da dissertação, com o que parecia haver de mais razoável deles. Gostei do resumo, eu que não lembrava mais o que tinha enviado para o evento. Café a postos, sentei-me num ponto a meu ver muito bom para a observação, reli os capítulos saltando parágrafos – sem os saltar de fato, mas era algo que acontecia porque eu era atormentada pelo pensamento de que, fora do ambiente ordinário de todos os dias, é possível concentrar-se de maneira distinta, mais atenta (eis que assim eu própria me mentia). Percebi um moço sentado mais à frente que vez em quando me observava. Parei a leitura para ver se de fato eu o conhecia. E é engraçado isso também, a necessidade de, estando em outro lugar, encontrar alguma coisa que nos remeta a nós mesmos, em lugar anterior àquele. É um movimento interessante, se se pensar que é preciso mudar de lugar, pela inconstância mesmo, e pela necessidade de buscar outra coisa (ah, Dulce Veiga) mas que, ao mesmo tempo, quer-se um lugar para chamar de próprio – e poderiam ser muitos os lugares próprios. Ah, e não, não parecia ser um conhecido o moço do café da rodoviária – mas ele parecia muito um moço que estuda (estudou?) no ICHS, na História, se me parece. E naquela hora pensei que de repente ele me observava por causa da minha mania boba de rir sozinha – às vezes de falar também. Podia ser.

Dentro do primeiro ônibus, arrumo companhia para o segundo café, e o mais engraçado do dia, acompanhado agora de pão de queijo, já no prédio da Letras. É Antônio Carlos, funcionário da UFRJ, que veio com tudo e com todas as cantadas possíveis – a melhor delas foi: sabe que eu sempre tive namoradas mais altas do que eu? Autopromotor de si mesmo (haha) em elevadíssimo grau, e falastrão como muitos cariocas que eu conheço, Antônio Carlos falou pra mim que, ainda que eu não desse meu telefone para ele, ele ia ver na programação do evento o meu nome completo e ia me procurar no Orkut. Essa devia ser uma ameaça, que eu respondi coma boca cheia, típica de quem não vai falar naquele momento. E ri muito com ele, que apertava os olhos pra falar comigo, e ajeitava os óculos escuros na testa. Ele me contou histórias de várias mulheres com as quais ele já tinha saído, e eu ouvia com gosto, dando vários palpites – do porquê de a modelo fotográfico tê-lo trocado por outra moça mais jovem, da moça loira que foi embora pra Bahia, da outra que pagou a faixa preta de judô pra ele (e ele que não tinha o menor jeito de quem luta judô, ainda mais faixa preta). Agora imagine tudo isso contado com aquele sotaque arrastado. Adorei conhecê-lo porque ele falou tanta bobagem comigo que eu até dei uma relaxada, eu que tinha viajado a noite inteira – e, claro, aproveitei o café, tomado em espaço aberto, antes de entrar no prédio da Letras.

Agora sim o evento

Era o I Encontro do Fórum de Literatura Contemporânea da UFRJ. A primeira mesa da manhã me deixou eufórica. A segunda, emocionada. O intervalo entre elas, animada e decidida: acho que meu lugar de pesquisadora está ali.

A primeira mesa teve como título “Da ficção do século XXI”. Soube que há uma professora da UNICAMP que estabeleceu uma tipologia para a literatura brasileira contemporânea, e depois vou pesquisar a respeito. Essa tipologia divide as obras de acordo com as seguintes temáticas: mistério, amor, urbana, política, drama familiar, autobiografia, homenagem. Não sei o porquê de se precisar isso, mas parece que esse trabalho foi feito juntamente com uma professora francesa, essa si m presente no evento, que falava em um português excelente (que vacilou apenas na pronúncia da palavra “êxito”, quando ela disse um “e” aberto). Essa professora falava sobre as traduções da literatura contemporânea brasileira na França. Ela disse ainda que o que tem sido estudado em termos dessa literatura na França é a relação entre as figurações da cidade/paisagem, e da paisagem/problemas urbanos, em escritores como Daniel Galera, Ajzemberg, Bonassi, Evandro Ferreira, Marcelo Mirisola – esse último malvisto, dada a sua predileção pela linguagem chula, que os franceses não admiram muito. Ora, ora. Mirisola, associado a Nuno Ramos, foi tema da segunda comunicação da mesa, que estabeleceu um ponto de vista que achei muito bom: o de se pensar a cultura contemporânea a partir do conceito de abjeção, presente em Bataille e Kristeva. Outra comunicação tentou estabelecer o roteiro que levou a literatura nossa a ser o que é hoje, dos anos 70 pra cá (movimento que Flora Sussekind já fez muito bem, em “Literatura e vida literária”), incluindo autores que Flora Sussekind não incluiu, mas sem lhe alcançar o brilho. E a última comunicação dizia respeito ao estudo de três romances de Rubens Figueiredo, ex-aluno da UFRJ, que ainda não li. Achei interessante o fato de um professor estudar a obra de um ex-aluno. Normalmente o que se vê é o contrário.

Da segunda mesa, “Da atualidade da poesia”, sou obrigada a citar nomes, porque o encontro de Eucanaã Ferraz, Antonio Cícero, Chacal e Heloisa Buarque de Holanda para mim foi inédito e emocionante. A conversa foi deliciosa. Estou com os flashes todos muito vivos ainda comigo. A palavra precisa de performance. Performance para soltar a palavra – seja pela mídia, seja pelo corpo. Se já me roubaram o marginal, agora me roubam o CEP. Quem tem capa dura e folha de guarda luxuosa é clássico. Quem faz livro de memórias, então! Os anos 70 trazem e não trazem saudade. O século XXI é o século da palavra. O melhor momento da cultura brasileira é sempre o hoje. Tudo demorou muito até que publicasse. Às vezes é tudo muito lento mesmo. O processo de entendimento das coisas não vai deixar de ser um processo individual. Corpo é carne e tempo. Literatura é forma e reflexão, sem engajamento, e entendimento e imaginação, como propôs (o último par) Kant.

Da manhã, guardo com uma confiança que ganhou um ponto os olhares e dizeres de Angela e Tania. É uma certeza misteriosa, mas que não deixa de ser certeza, a de que encontrei possível interlocução. Da comunicação que apresentei, guardo com vigor as palavras de Paulo César, Daniel e Rosa. Do valor da pesquisa até o momento em que ela parou (porque é preciso parar em um momento, senão o mestrado é eterno). Do apoio para continuar a pesquisa no RJ. Do ânimo para projetar o ano que vem como o ano de pensar o projeto. E gostei. Voltei eufórica.

Saí do RJ rumo a JF. Fiquei na pousada de uma outra vez, no pé de uma das entradas da UFJF. Tive o banho sabotado pela energia que caiu, e o terminei no frio mesmo, o que deu uma energizada e ao mesmo tempo uma relaxada que me botou pra dormir. Dia seguinte, entreguei os trabalhos, mas não senti nada. Peguei meus comprovantes, agora sim oficiais, da defesa, quase um ano depois. Não senti nada. Fiquei foi com uma vontade de ir logo embora. Peguei meus livros de volta, um material que estava por lá. Revi os espaços que outro dia comentei aqui, o Palace tá revitalizado, o Mascarenhas iluminado e a Halfeld cheia de gente. Não senti alívio, raiva, alegria, nada. Só vontade de continuar viagem, e um cansaço dos dias anteriores.

E hoje faz um ano. Um ano desde a defesa. Um ano vivendo uma espécie de mágoa, orfandade, tristeza. Tudo isso que agora pretendo reverter em forma de continuidade. Continuidade de algo em que pode ser até que a banca não acreditasse, mas agora achei quem. Achei por onde. E vou continuar. Porque acredito. E encontrei ouvidos, e mãos estendidas. Que dependem, não menos, de meu próprio esforço. Eu sei. Eu sei. Eu sei. E hoje não tenho mais medo. Amanhã não sei.


E para todos nós, Antonio Cícero:


O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisa entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.

A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.