Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

não consigo ter discernimento, equilíbrio, clareza, claridade, para saber-me em lugar que de perto passa a longe.

o estado de vírgula é sempre mais instável, há um desequilíbrio por vir, uma pausa que não se encerra, mas que, enquanto pausa, é um estorvo.

isso, isso, continue chovendo, meu pensamento.

prefiro a frieza do úmido à caloria suorenta dos dias azuis.

blues estou eu, por dentro e por fora.

é uma tristeza fria e úmida, sonora, blues.
quero me apegar, saber que estou segura
quero me agarrar, saber que tenho rumo
quero me encolher, reconhecer-me frágil

queria, dissimulada, fazer tudo parecer calmo
queria, calmamente, descabelar-me com a chuva
queria, propositadamente, desnudar-me, desmascarar-me

esse seria o momento ideal para voar.

para me traduzir, só um poeta dos meus favoritos, Marcos Prado.
PENÚLTIMA

(Marcos Prado)

Como posso agora estar alegre?
era de se esperar que eu desesperasse
talvez mais tarde eu desintegre
entre o penúltimo gole do último porre
e leve ao meu lado os que me seguem

sim, perdi a razão do que eu achava e do que eu acho,
mas aprendi que o céu é mais embaixo
ainda não sei o quanto dei a tantas quantas amei
ainda não sei ao certo se eu errei

Domingo, Dezembro 13, 2009

Noll para o Jornal Rascunho (Curitiba-PR)

Veja esse texto no Rascunho.



A última edição de 2009 do Paiol Literário - projeto promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e com o Sesi Paraná - aconteceu no dia 17 de novembro. O convidado foi o escritor gaúcho JOÃO GILBERTO NOLL, nascido em Porto Alegre (RS), em 1946. Noll é autor de 13 livros, entre eles, Acenos e afagos (Prêmio Portugal Telecom 2009), Mínimos, múltiplos, comuns, O cego e a dançarina, A fúria do corpo, Bandoleiros e Lorde. Por sua obra, recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Jabuti em cinco ocasiões: 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. O romance Harmada consta da lista dos cem livros essenciais brasileiros em qualquer gênero e em todas as épocas, organizada pela revista Bravo!. Seus livros já foram adaptados para o cinema e o teatro e ganharam traduções na Argentina, na Inglaterra e na Itália.
No bate-papo entre o autor e os seus leitores, mediado pelo escritor e jornalista José Castello, Noll falou sobre as características mais marcantes de sua escrita e de seus personagens, reforçou o amor que sente pela poesia e analisou a influência do cinema na sua obra, além de ler, para o público, vários trechos de seus romances Lorde e Acenos e afagos.



• A expressão de uma voz


Gosto realmente de ler trechos dos meus livros. Porque tenho a impressão de que escrevo principalmente para a expressão de uma voz. O que interessa nos meus livros, se alguma coisa realmente interessa, não é a sua trama, não é o seu enredo. É a percepção que este meu pequeno herói tem do mundo (Noll mostra o seu romance Lorde). A percepção dele em relação ao mundo, às coisas, aos objetos. Ele é extremamente contemplativo. Gosta muito de olhar e de traçar comentários sobre as coisas que vê. Isso, inclusive, é um dos seus problemas básicos. Essa vocação para a contemplação num mundo que exige, o tempo todo, a produtividade.


• Fusão perigosa


Outra coisa capital nos meus livros é o erotismo, sem sombra de dúvida. Um erotismo às vezes pesado, às vezes mais lírico. Esse desejo de conviver com a interioridade do outro, essa possibilidade de se fundir ao outro, também é muito forte no que eu escrevo. A ponto de o personagem central de um dos meus livros, Lorde, haver conseguido esse intento. No livro, ele se transforma em outro. Ou o outro o introjeta. Seu aspecto exterior é do outro, não é dele, mas é ele quem articula a visão do outro. Isso é muito perigoso. Porque, se você quer se fundir ao outro, é claro, o amor pode pintar nesse momento. Os franceses dizem que o orgasmo é uma pequena morte. E justamente aí é que está o lado perigoso desse "se fundir" ao outro. Quer dizer, quando você se funde demais ao outro, e isso acontece com o cara do Lorde, bye-bye. A identidade dele vira uma terceira coisa.

• Sem flashbacks


Escrevi Lorde em Londres, com uma bolsa de escrita do King's College. Fiquei quatro meses lá, escrevendo esse livro, da manhã até as entranhas da madrugada. E foram os dias mais felizes da minha vida, não tenho a menor dúvida disso. Porque eu vivia, ali, o princípio do prazer freudiano o tempo todo. Eu não estava exatamente na realidade. Eu estava ficcionalizando uma série de coisas que eu vivia. Claro que Lorde não é um livro autobiográfico. Nem tenho jeito para fazer coisas autobiográficas, para fazer um documentário sobre o meu eu. Mas, realmente, se eu não tivesse ido a Londres, eu não teria escrito esse livro. Dos meus livros, Lorde é o livro que mais admiro. Justamente por sua concisão. Nele, só falei sobre as coisas que eu estava vivenciando naquele momento. O que eu via, o meu quarto, o ônibus que eu pegava, o bairro em que eu morava. Tudo partia da realidade empírica, ali, daquele momento. E não faço nenhum flashback em relação ao Brasil. Porque o cara (o seu personagem) é brasileiro, escritor. E eu não fazia flashback. Isso de não fazer flashback também é muito meu.


• Todo mundo e ninguém


A primeira frase do livro A fúria do corpo é: "O meu nome não". Não queira saber meu nome, não queira saber da minha cidadania. Quero algo além da cidadania. Eu disse: "O meu nome não". Aqui (mostra o Lorde) também tem isso. Meus personagens jamais têm nome. Às vezes, faço algumas brincadeiras com João, João Evangelista, por exemplo. É para não ficar muito psicologista: o cara foi ofendido na infância, chega à idade adulta, faz isso e faz aquilo. Isso realmente dá ao personagem uma cidadania exagerada, que eu não quero. Eu quero falar de todo mundo e ninguém através desse meu protagonista que é sempre o mesmo homem. Só descobri isso há pouco tempo. Ele é sempre o mesmo homem. Ele vai continuar comigo. Tenho plena certeza disso. Ele habita em mim. E, se ele se for, eu vou junto. Então, realmente, quero que ele fique vivinho e com saúde dentro de mim. (passa a ler trechos de Lorde e, logo depois, de Acenos e afagos).



• Atração pela perversão



A importância da literatura na vida cotidiana se faz por conflitos. Por atritos. São coisas muito diferentes. A vida cotidiana pede uma praticidade que eu geralmente não tenho, confesso. Mas, aos trancos e barrancos, estou indo muito bem na minha vida de escritor. Sobre a vida cotidiana, ela é o que é, digamos assim. E a literatura, para mim, é transfiguração. Se não for transfiguração, não é literatura. E você não pode viver o seu dia-a-dia em estado de transfiguração. Impossível. Para mim, é algo irresolvível. São duas coisas bastante distintas. A literatura pede um espaço muito grande de ócio, de contemplação; e a realidade pede o aspecto emergencial das coisas. Tudo é muito emergencial na nossa contemporaneidade, por motivos óbvios. E você não escreve ficção com pressa. Eu uso muito a pressa e o emergencial na minha sintaxe, por exemplo. São sintaxes, em geral, muito longas, que querem justamente alcançar o simultaneísmo. Por isso, são longas. Elas não têm tempo para o ponto final. O que é ponto vira vírgula. E é por isso que leio as minhas coisas assim (em voz alta), meio sôfrego. Porque a pontuação é muito escasseada, pelo menos o ponto gramatical. Acho que isso vem da emergencialidade, dessa ânsia da simultaneidade. É como um antídoto, como uma vacina que pega o mal para matar o mal. Porque, se não fosse assim, não teria graça ser um escritor. Não dá para ficar o tempo todo denunciando o que não presta. Você tem que ter certa atração pelo que não presta, pela perversão. E, muitas vezes, você pode fazer uma espécie de acusação, usando aquilo que o mundo - ou que você mesmo - condena, como potencial estético. Pode. Senão tudo seria literatura politicamente correta.


• Um escritor de linguagem


Essa história da presentificação é muito importante. A Clarice Lispector também tinha isso. Essa coisa de relatar, mas expressando também a sua dificuldade de relatar. E é muito penoso mesmo. A expressão da linguagem é uma coisa muito penosa. E eu sou um escritor de linguagem, não sou um escritor de tramas. Começo a escrever um livro escrevendo qualquer coisa. Começo pela palavra, e não por idéias pré-estabelecidas. Começo e vou me aventurar, vou ver aonde vai dar aquilo. Então, num determinado momento, surge o tom que eu estava querendo e eu nem sabia que estava. Porque esse início é um tatear, um aquecimento, à procura daquilo que não sei bem o que é, mas que seria bom que pintasse. Então, sou um escritor de linguagem. Escrevo ficções de linguagem, de voz. A voz é muito importante para mim. E lendo, lendo, lendo assim (em voz alta) para possíveis leitores, me dei conta de que estava fazendo uma voz bastante demencial. Mesmo fisicamente. Estou a ponto de sucumbir, tamanho o peso dessa voz. Não é a

minha voz, exatamente. Ela se encarnou em mim.


• Inveja dos músicos


Esse homem (o seu personagem) representa certa carência que eu tenho. Uma falta. Uma falta de mundo, de aconchego. Enfim, de tudo que é gostoso. Eu escrevo porque me falta. Começo a escrever pela falta, pela carência. Não tenho nada na cabeça. Minha cabeça está vazia. Tanto isso é verdade que, em Acenos e afagos, num determinado ponto do livro, vi minhas mãos caminhando sozinhas. Mesmo. Tenho muita inveja, no bom sentido, dos músicos. Porque os músicos não materializam idéias. Estou falando de música - vamos abstrair as letras de música, ou aquelas músicas chatas, descritivas, Tchaikovsky... E a literatura é uma coisa sumamente intelectiva. Por mais que seja poética, ela é um fator intelectivo. A língua é um fator intelectivo. Então, minha utopia, porque isso é uma utopia, e não podia ser diferente, é que a literatura tenha esse aspecto não-intelectivo da música e, muitas vezes, da poesia. Então eu tento fazer esse amálgama entre poesia e música, que são coisas mais artísticas. Já os romances tratam das questões fundamentais de seu tempo - os grandes romances, claro. São coisas mais analíticas. E um grande romance sempre vai ter relações de personagens abundantemente ricos. Mas eu queria fazer mais arte do que literatura. E é por isso também que leio para as pessoas. Porque, quando leio, crio um momento muito mais artístico.


• Esquizóide



Eu não sou um escritor da família. Meus personagens centrais são desfamiliarizados. Não têm mãe, nem pai, nem nada. Porque já houve um autor brasileiro que tratou desse assunto às mil maravilhas: Nelson Rodrigues. Eu quero pegar os seres avulsos mesmo. Mas não acho legal dizer que meus personagens fizeram uma escolha, porque, enfim, é muito difícil determinar se alguém faz uma escolha ou se é impelido a alguma coisa. Há essa procura insana por algo, essa procura que faz com que esse cara (o seu personagem) viva vagando, pegando um ônibus de uma cidade a outra sem ler para que destino ele vai. Tudo tem muito a ver com o fato de que, depois do meu terceiro livro, eu voltei para o Sul, para ver se conseguia escrever mais. E consegui. Realmente foi uma escolha muito acertada. Mas, lá, passei a não me encaixar no ambiente à minha volta. Fiquei, eu próprio, muito avulso. Por um lado, essa condição me permitiu escrever muito sobre esse cara que vive, também, de lá para cá, sem destino. De certa forma, encarcerei esse cara dentro de mim: "Você fica aqui, você fica quieto". Mas não é só isso. É uma relação extremamente amorosa também. É uma coisa que você guarda, porque é um filão - a palavra é horrível -, um filão de futuros livros. Não quero me desfazer dele, mas, em nenhum momento, eu acho que seja real. Ou que eu seja um esquizóide por causa disso. Até posso ser, mas não por isso.

• Vontade de ser o outro



Tenho muita vontade de ser o outro. Com essas revistas comercializadas por aí, hoje, com seus belos jovens, todo mundo tem um pouco de vontade de ser o outro. De ser aqueles corpos. Para se dar bem nos amores, na profissão, etc. Então, é um pouco isso, também. Ele (o seu personagem) quer ser o outro. Ele está insuficiente naquele seu papel cotidiano. Ele se sente insuficiente. Daí, o desejo, principalmente no Lorde, de ser o outro. Ele quer ser o outro. Há momentos em que ele se maquia, em que pinta o cabelo. Mas isso não resolve nada. É um pouco também aquela coisa do brasileiro em Londres, chegando lá, vendo aquela elegância. Ele queria ser aqueles passantes tão bem educados. Até que, um dia, ele começa sua carreira de ladrão de carteiras em estações de trem. E tem orgasmos com isso. Quando dá um esbarrão em um inglês, de uma forma muito bacana, com um gesto muito bacana, e lhe toma a carteira, ele vai para o banheiro, que é onde poderá ver que notas estão guardadas ali. E descobre que há uma boa disponibilidade de grana dentro da carteira. Então, ele tem realmente uma vertigem. Aquele lugar estava fedendo, era um banheiro público. E ele transcende aquilo, e se eleva pela possibilidade de poder gastar mais durante os próximos tempos. Ele também é muito tentado à prostituição. Mas não dá. Ele não tem mais idade para isso.


• Na canoa da solidão


Meus livros são tristes. É a solidão. A solidão radical em que esse cara (o seu personagem) vive, completamente. Ele não troca nada com ninguém. É impressionante. E a solidão também é um tema bastante atual no mundo contemporâneo. A solidão é uma questão crucial. É muito político falar da solidão hoje. É muita gente nessa canoa. Mas talvez meus livros não sejam tristes o tempo todo. Eles têm momentos líricos, também. Bem líricos.


• São esses


É Drummond. É Fernando Pessoa. É tanta gente. É Cecília Meireles. É T. S. Eliot. São esses. É desses que eu gosto.

• Uma canga


A narrativa é uma canga para o romancista, para o contista. Você não pode se afastar do relato, da forma capital do romance do século 19, de Balzac e tal. E quando você coloca a possibilidade poética no relato, é como se o tempo se coagulasse um pouco, se libertasse um pouco do próprio relato. Porque o relato tem muito a ver com a história humana, está muito colado a ela. Mesmo na ficção. Ele tenta administrar as coisas como a história administra: numa seqüencialidade. Meus livros se desesperam diante da seqüencialidade, dessa seqüencialidade muito automática, de causa e efeito. Mais uma vez, por isso, é que eu procuro limpar, deles, o passado, e trazer a poesia um pouco mais para perto da prosa. É esse o momento em que você coagula. Como naquele momento entre um pai e seu filho (em um vestiário, numa cena de Acenos e afagos que Noll tinha acabado de ler). Não acontece nada. Mas é um momento de consagração, de celebração da beleza jovem. É algo impossível que está se travando ali.


• O eu da narrativa


Às vezes, acho que o que faço é também um pouco de poesia lírica e narrativa. Porque estou preocupado é com o eu da narrativa. Geralmente, uso a primeira pessoa. Às vezes, alterno a primeira com a terceira, mas geralmente uso a primeira. Gosto de saber a opinião que o sujeito tem do mundo. Nem tanto o que está acontecendo no mundo.


• Minha madrasta


Em nenhum momento quis desistir. Mas, realmente, renunciei demais pela literatura. Demais. Foi excessivo. Em termos materiais. Sou de um grande despojamento material. Um horror. Eu acho um horror. E me arrependo um pouco. Mas, como pude escrever tantos livros, esse horror se amaina um pouco. Eu morava no Rio de Janeiro. Morei lá por 21 anos. E, no início, o fato de eu ter deixado o Rio e voltado para o Sul quase me enlouqueceu de tanta dor. Eu nem tinha consciência, na época, de que eu estava voltando para poder me doar um pouco mais à literatura. E foi o que aconteceu. Os livros estão aí. Mas fiquei muito indigente, humanamente falando. Indigente em todos os sentidos - claro, num país como o Brasil... Por isso é que eu chamo a literatura de "minha madrasta". Ela exigiu muito de mim. Tenho a impressão de que isso vem da minha infância, sabe? Da religião católica. Fiz o primário e o ginásio numa escola católica. E tinha essa coisa da missão, não é? A coisa da missão, de ter que doar o máximo de você. Agora, neste momento da minha vida, aos 63 anos, quero dar uma maneirada. Mas, quando penso nisso, estou pensando também que já tenho um novo projeto na cabeça. E há a necessidade de me entregar a ele completamente.


• Afásico, neuroconturbado e pobre de espírito


Sou tudo isso.


• Afásico


Acho que sou um pouco afásico. Mais na infância do que hoje. Mas, mesmo hoje, me custa tirar as palavras a... Como é que se chama aquela coisa que pega e...? Fórceps. Mas a aspiração ao silêncio também está na minha obra. Eles (os seus personagens) muitas vezes não querem saber da palavra. Estão de saco cheio de ter que expressar, o tempo inteiro, o mundo e as coisas do mundo. Vamos descansar um pouco, gente.


• Neuroconturbado



Tive um momento muito sério na minha vida, durante a adolescência. Muito grave, pelo menos para mim. Não queria mais estudar. Ficava em casa. Ou então, para fingir que ia ao colégio, eu saía caminhar. A mania de caminhar, já presente naquela época. Era o momento de despistar rastros.


• E pobre de espírito?



Isso, eu acho que não sou. Eu só estava brincando.


• Na imprensa


No Rio, eu trabalhei na Última Hora, no Correio da Manhã. Eu era redator do caderno cultural. Entrevistei pessoas maravilhosas, como Jeanne Moreau, na época em que ela veio ao Brasil fazer Joana Francesa. Também entrevistei vários músicos brasileiros. Mas eu sentia, sempre, que tudo me roubava um pouco da ficção. O jornalismo me ajudou muito no aspecto da síntese, nisso de limpar o texto sem clemência. Nesse sentido, ele foi muito bom para a minha literatura. Como experiência, o jornalismo me dispersava, mas eu não sofria muito com isso, não. Porque conheci muitas pessoas que eu amava como artistas. Entrevistei o Tom Jobim, no Bar Veloso. Ele me disse que gostava muito de Debussy e Satie.


• O desdém de John Wayne



Não tenho essa visão de ser isso ou aquilo em relação à literatura brasileira. Realmente não penso nisso. O que posso pensar é que, talvez, eu esteja escrevendo coisas muito contemporâneas. Isso eu posso pensar. Mas não que eu faça parte de um cânone da literatura brasileira. Até porque discuto um pouco essa coisa de literatura brasileira, isso de ela ser um setor das letras internacionais. As coisas estão todas misturadas. Os estrangeiros, os brasileiros. E tem outra: o cinema da minha infância foi muito importante para as coisas que escrevo hoje. Muitas vezes, nos meus livros, o cinema se torna quase que uma segunda natureza para o cara (o seu personagem). Então, imagine, eu lá, com oito, nove anos, vendo todos aqueles filmes, sobretudo os americanos, por razões óbvias. Aquilo foi inoculado na minha cabeça de uma forma muito profunda. E está presente nas coisas que escrevo. Como, por exemplo, o olhar de John Wayne, aquele machão protótipo da força norte-americana. Sempre fui muito curioso quanto ao olhar de desdém dele, principalmente para as personagens femininas. Ele olha sobranceiro, assim, não é? Dá um minissorriso. E esse minissorriso, essa coisa desdenhosa, eu levei para os meus personagens. Porque eu não tenho isso, não sou um cara de desdenhar. Mas, como é bom colocar coisas que não são suas no seu protagonista! Então, não é só da realidade brasileira que eu trato. Imagine o que o cinema americano não fez com a cabeça das crianças latino-americanas. É inconcebível. Escrevi coisas até muito explícitas sobre isso. No meu primeiro livro de contos, de 1980, O cego e a dançarina, tem um faroeste. Faroeste mesmo. Só que se passa na Baixada Fluminense, naquela poluição tremenda.


• Esvaziado



Tenho que manter um intervalo, sim, entre um livro e outro. Agora, por exemplo, estou terminando um. Já terminei, na verdade. Só estou polindo esse livro, que fiz a convite da editora Scipione. É uma narrativa longa, juvenil. O personagem central é adolescente e a linguagem é a mesma dos meus livros para adultos. Não houve nenhuma mudança. Não tive a menor complacência. E, realmente, esse garoto é o meu personagem de sempre. Só que na adolescência. Todas as suas questões estão ali. Mas, enfim, a história se passa no Rio. Chama-se O anjo das ondas, porque trata de um surfista. Um surfista que vive coisas muito escabrosas. O livro sai no começo do ano. E a Scipione também está lançando, neste momento, dois livros de contos meus. Cada um, um volume diferente, de contos novos. Mas não escrevo um livro e passo prontamente para outro projeto. Não, não dá para fazer isso. Você fica um pouco esvaziado.


• Mundo de viagens


Viajo muito. Este ano foi uma loucura. O mundo de viagens que fiz. Para o exterior também. Fazendo palestras. Coisas assim. Fui para a Argentina, a Bolívia, a Espanha, a Inglaterra. Para vários estados brasileiros. Saíram cinco livros meus traduzidos na Argentina, e os livros hispano-americanos circulam muito pelos mais diversos países. Não é como aqui, em relação a Portugal.


• Pequenos romances


Foram contos que fiz para a Folha de S. Paulo, para a Ilustrada. Eu escrevia dois microcontos por semana. Uma produção muito alta, muito alta mesmo. São trezentos e poucos, no total. Gosto muito do que o Wagner Carelli escreveu no prefácio desse livro (Mínimos, múltiplos, comuns). Ele disse que esses microcontos têm, cada um, a função de um romance inteiro. Não são microcontos que tentam pegar uma fatia, um fiapo do cotidiano. São romances, microcontos às vezes até épicos. Vão do nascimento à morte de seus personagens. Gosto muito desse livro. Gostei muito de me dedicar a essa forma, aos instantâneos. No início, eu me fechei num quarto e escrevi o máximo que eu podia, uns dez microcontos. Para poder fazer os seguintes com mais tempo. Então, eu sempre tinha dois, três, quatro textos já guardados na redação. Textos que tratavam das coisas com um tom mais artístico. Porque a maneira como algo é dito talvez seja mais importante do que aquilo que é dito. É uma questão. Acho que são microcontos, sim, mas também têm um pouco de romance. O Carelli tinha razão nisso. E foi ele quem fez a organização. Eu não consegui fazer. Não consegui pinçar os contos e pensar em que ordem ficariam. O Carelli fez isso. E deu os títulos gerais para cada grupo de textos. Eu gostaria muito de retomar essa experiência. Gostaria muito. (...) Mas só escrevo ficção. Não sei fazer crônica.


• Forças excretoras



Até no momento de ir ao banheiro podem se infiltrar, aqui e ali, coisas líricas. Agora, as ações dos meus personagens não são hierarquizadas. Ir ao banheiro pode ser tão importante quanto uma noite de amor. Acho que é isso. Muitas vezes, o lirismo pode se infiltrar aí. E por quê? Porque esse é um momento artístico também. Eles (os seus personagens) são muito de celebrar as coisas, de celebrar os instantes. E até o momento de ir ao banheiro pode ser algo cultivado, chegando, às vezes, a certo lirismo. No Lorde, quando o cara rouba um inglês numa estação de trem e vai para o banheiro, aquele é um momento de profunda celebração. O cara se eleva a partir do momento em que sente que ali, naquela carteira, tem grana suficiente para um belo estágio da vida dele. E também eu sempre fiquei muito curioso com essas coisas. É muito difícil o cinema, e mesmo a literatura, mostrar esses momentos. Mas a minha literatura consagra muito, cultiva muito as forças excretoras do corpo. A urina. O esperma. Os fluxos menstruais. A própria merda. São coisas bastante louvadas. Nesse sentido, faço uma literatura muito materialista. Existe um cultivo muito grande na matéria humana.


• Corpo nostálgico



Estou muito ligado à produção de dissertações e teses de doutorado sobre o meu trabalho nas universidades brasileiras. E elas estão, em sua maioria, no meu site. O que também é muito bom, porque mantém as pessoas da academia informadas sobre as novas pesquisas. Gosto muito. E estou sempre à disposição de quem quiser conversar comigo acerca de seus trabalhos. (...) Aliás, várias dessas teses se referem a essa questão do corpo. A essa questão da materialidade. Muitas vezes, as excreções humanas não são exatamente convertidas em algo muito lírico, não. Mas o lirismo se faz a partir do peso dessa substância, do peso do corpo e dessa sua densidade, muito concentrada. Porque, às vezes, ele (o seu personagem) tem que cantar entre o espaço vazio e essa concentração do humano. E isso, essa concentração, também se desfaz, se esfarela um pouco. As pessoas viram flutuantes - isso também está aparecendo muito nas minhas coisas. É isso. Um corpo talvez nostálgico. Uma saudade de um corpo que nunca realmente se fez. E a infância.


• Uma promessa de afeto


A infância tem uma importância enorme para mim. É sempre um momento de delícia. Esse meu personagem (de Acenos e afagos) sempre encontra crianças que nunca mais vão aparecer no livro. Mas são encontros muito significativos. Os sorrisos... Isso me lembra muito um filme do Fellini, muito importante para mim: La dolce vita, com Marcelo Mastroianni, que também é um ator-fetiche para mim e para a minha geração. Eu, às vezes, imagino esse meu protagonista como o Marcelo Mastroianni. Porque o Mastroianni é um personagem mais real. Não posso imaginar James Dean para esse cara, uma coisa totalmente recriada por Hollywood, algo que não é real. Mas, no final de La dolce vita, o Marcelo Mastroianni, depois de uma noitada de sexo e de álcool, vai até uma praia deserta e, lá longe, ele vê um riachinho, e vê uma menina, que não se sabe quem é, não se sabe por que entrou ali no filme. Mas o que essa menina tem para dar ao Marcelo Mastroianni é o seu sorriso. Ela o chama. Ela faz um gesto para chamá-lo. E ele não consegue ir. Ele se paralisa. Essa lembrança está muito viva na minha memória. Por isso há essas crianças tão comuns no que escrevo. (...) Uma criança, um adolescente, uma promessa de afeto, de libido - por que não? Esse sentimento de promessa que a juventude pode nos legar é muito poderoso. A juventude ou a criança. O sujeito adulto se renova com esses momentos. O que temos ali, em termos materiais, é um corpo, claro. Mas novo. Um corpo ainda virgem, de alguma forma. E isso é uma maravilha. Isso é uma maravilha. (lê mais um trecho de Lorde)

Edição: Luís Henrique Pellanda

Sábado, Dezembro 12, 2009

eu sou capaz de esperar

de escrever mil poemas tristes

de me distrair com trava-línguas, filmes noir, livros pela metade, arrumação de casa

mas não consigo, não, não consigo

ficar em estado de pausa

de breque

de prostração

diante de algo que eu quero entender.

++

anseio por palavras

suas palavras

por favor, me escreva, me diga, me envie um sinal

que minha antena capte.

++

estou aqui, à minha maneira calma

estou aqui, à espera dos dias

estou aqui, à espera de novos sinais.

++

sou eu

você se lembra?

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

ultimamente

sinceramente

eu queria o coração apagado
já teve a sensação de falar falar falar e ao redor paisagem nenhuma, reação nenhuma?

é a pior das solidões.

Sábado, Dezembro 05, 2009

pareço oca, nos últimos dias. alguma coisa me corrói. eu procuro e só vejo a chuva e o barulho bom que tem água e depois da água o passarinho e depois do passarinho o grilo, a cigarra, o sapo. vejo imagens de pele com pele e estremeço, não tenho, não tenho mais a pele com o calor do meu outro eu. leio que se eu parecer frágil demais eu posso me quebrar. leio que se eu disser que estou estremecendo a cada vez que imagino sentir a sua pele eu posso ficar ainda mais distante desse calor. leio que se eu disser tudo de mim eu ficarei para trás, esquecida, feito a chuva, que empoça e depois some, evapora. ninguém mais se lembra. e aí ficarei no frio. não, não é isso o que quero. mentirei?

Sexta-feira, Novembro 20, 2009

aproveitando o dia 20...

estou com a consciência negra!

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

os últimos dias têm sido de chuva, e eu, invariavelmente trabalhando com textos, tenho uma impressão engraçada de que eu aqui, esses textos, o dia passando por mim e eu com esses textos, bem. tenho uma impressão engraçada de que eu aqui, o dia, a chuva, o barulho shhhhhhhhhhhhhhh, depois para, depois volta o barulho shhhhhhhhhhhhhhhh, e ficam umas gotinhas grossas que ficam caindo depois de um tempo sem chuva ainda, e fica o barulho de água que sempre cai no vizinho aqui, num sei lá o que que tem aqui do lado que sempre acaba a chuva e parece que ainda está chovendo, bem. bem, está sempre chovendo. e eu aqui com os textos. se não são as redações, são as monografias, e eu com elas, e eu sem elas penso que deveria estar com elas, e tudo com uma cara de que está acabando, mas não acabou, como a chuva, shhhhhhhhhhhhhh, bem. tenho uma impressão de que eu aqui, em silêncio, e nos últimos dias tenho deixado a televisão ligada, e se não é a televisão, é o rádio, quando vão dizer as notícias paro e escuto, falam sobre concursos, sobre o tempo. todos gostam tanto de falar sobre o tempo. repara que tempo e trânsito são OS assuntos. tempo e trânsito é tudo o que a gente precisa. estão certos, os programas da tevê, os programas do rádio, a imediatice, bem. o caso é que eu tenho pensado muito aqui, nesses últimos dias, com a chuva, com os textos, comigo aqui tentando romper o silêncio que eu faço, o silêncio que fazem, para uma pequena evidência de coisas bem simples: que eu aqui, assim, com essas coisas, tenho a impressão engraçada de que tudo o que eu faço me retrocede. e eu digo retrocede não porque seja ruim, mas porque eu não sinto que melhoro, sinto que continuo, e isso não é melhorar. então, retrocede. e eu preciso ficar muito atenta para me prender, logo que passe, à coisa que me faça avançar, andar, cair em novos buracos, em novas armadilhas. pois não foi isso o que vinícius disse hoje, que a vida é criar armadilhas e cair nelas? ou foi que a vida é criar armadilhas e cair em armadilhas, não necessariamente nas próprias? ah, não tenho mais certeza. quero é mais as armadilhas. e que tudo mude, que eu estou aqui, morrendo de medo de a chuva parar de me proteger, de a casa parar de me proteger, de eu parar de me proteger de mim.

Terça-feira, Outubro 27, 2009

dizem que a sexta é a última temporada de Lost. se a quinta termina com a explosão (explosão? não se sabe) que pode ter terminado ou iniciado tudo o que é Lost, um john locke talvez transmutado, faraday morto (claro! e agora quem vai explicar o trânsito entre os tempos?), a evolução de um jacob fantasmagórico para um jacob que aparece para todo mundo e não envelhece...apenas sobrou richard alpert, até então o personagem que eu acho que pode ter alguma coisa de interessante ainda, talvez pela ligação com jacob e locke, pelo fato de estarem em um misto de trânsito e permanência, ou talvez por transitarem os tempos... não sei. só torço para que tudo NÃO acabe em romance, porque aí serão duas: 1- um saco. 2- um tempo perdido. e toda a curiosidade despertada teria sido em vão.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

tinha feito uma música, assim, sem mais nem menos. enquanto esfriava a sopa e bonner dizia boa noite, boa noite, a música lhe veio. lendo nos lábios o boa noite, as lentes embaçadas de fumaça da comida quente, lá pelas oito da noite, hora dos desatentos, lhe veio a música, sim, ela inteira, de um jato. pensou nos dedos e os dedos nas cordas, e o balanço dos dedos dos pés marcaram o refrão, sim, é este o refrão, nesse pedaço aqui, mostrou com a colher, aqui é o refrão, e mete pra dentro o líquido amarelo, sobrou a cebolinha, gostosa cebolinha verde, mas o que faço com ele, o que ele me diz? boa noite, boa noite. vai comer mais, deixou nada pra mim, olha o refrão de novo, propaganda de desodorante, e olha o fraseado, verdadeira feira montada na sua cabeça, e as propagandas, e o sangue do jornal, e a mãe, e a sopa. verdadeira maravilha cotidiana, não dá para fazer música disso. nem da cebolinha.
- se eu te pego te faço um traço, uma reta, uma curva louca.
- faça-me rosa tatuada. tua rosa.
- eu posso olhar você assim milhão de vezes e sempre te achar diferente.
- é o tempo passando em mim. segura e olha.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

mosaico de tempos ou isso é só literatura.

ele me segurou firme como quem está prestes a beijar, e me chamava repetidamente falsa magra, falsa magra, gostosa, uma falsa magra. me pegava os braços e a barriga, encontrava meu umbigo e remexia nele, me abraçava a encostar umbigos, querendo na certa que eu sentisse uma excitação que se iniciava. e que eu o beijasse ali mesmo, de pronto, aquela hora. não, não havia motivo para beijar, e uma série de coisas fez meu pensamento tornar-se um todo turvo, como quem repassa um arquivo para escolher uma página, como quem procura uma palavra para encontrar a expressão, um trecho de um conto, uma até então aparente citação que se quer comprovar, mas está ainda no momento da procura, a repassar, procurar, tentar visualizar um ponto pequeno no todo enorme que se apresenta. não, não, não vou te beijar, eu vou embora, não ficarei, não há por que ficar. e me pegava a barriga, mostrando-a à noite, é branquinha, é tão branquinha, tão parecida comigo, veja como somos parecidos, e me mostrava a barriga, os braços, o peito desnudado. procurei ao redor lugar para me encostar que não fosse nele, procurei ao redor pessoa a quem recorrer que não fosse ele, mas nos rostos ao redor não havia rosto, nas paredes ao redor não havia apoio, não havia ponto em que me recostar. havia a rua, fria, mal iluminada, e a noite, que, por isso, era um tanto escura. nada que não fosse ele a esperar o beijo inexistente, o beijo que ficaria, por mim, apenas no pedido, no desejo. não, não haveria beijo. fique comigo, beberemos vinho, veremos as monalisas, já viu as monalisas em exposição? não, não vi, não vi as monalisas. são cem, são cem as monalisas, todas loucas, tão loucas, feitas pelo pó, pelo samba. o samba endoida? endoida, endoida sim, gargalhamos, só não endoida mais que a poesia, e eu vou ler um poema meu para você, mas só depois do seu beijo. sem beijos, sim, sem beijos, e eu preciso ir. você não precisa ir nada, não precisa ir, ninguém precisa ir. precisamos ficar, ver o vinho e beber as monalisas. isso sim, beber a noite, beber até a noite desistir e dar lugar ao dia, e dizermos palavras loucas, e dizermos apenas em poesia. não, não hoje, hoje eu preciso ir. sabe o que acontece? sabe o que você faz comigo? eu sou bipolar, já te disse? ou eu era bipolar, já fui, me tratei, não sei mais, sei que há tempos não sinto essas coisas, não sei bem o que são. e sabe o que vai acontecer? por sua causa eu voltarei a ser bipolar. você vai me fazer bipolar mais uma vez, e você não pode fazer isso. você vai me deixar bipolar de novo, sua puta, sua vaca, você vai me deixar doido e eu vou ficar aparecendo como quem te assombra só para que você saiba que a culpa é toda sua. enquanto eu me afasto, passo apressado, mãos agarradas em mim, para amenizar o frio, ainda escuto: bipolar, bipolar, bipolar, é isso o que você vai fazer comigo. me deixar bipolar. você é louca, sua louca, linda e louca.

Quarta-feira, Outubro 07, 2009


Rise


Eddie Vedder


Such is the way of the world
You can never know
Just where to put all your faith
And how will it grow

Gonna rise up
Bringing back holes and dark memories
Gonna rise up
Turning mistakes into gold

Such is the passage of time
Too fast to fold
And suddenly swallowed by signs
Low and behold

Gonna rise up
Find my direction magnetically
Gonna rise up
Throw down my haste in the road

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

esparsos.

Hoje vi um filme que há muito tempo eu queria ver. Era Into the wild, e eu queria ver porque conta uma dessas histórias que se dizem de verdade e é sobre um sujeito que viaja sozinho. Bobagem. Não se está sozinho. A gente transita e se modifica, mas não se modifica sozinho. As coisas ao redor contribuem para que se mude e mudam também.
Hoje dei algumas aulas mesmo sem acreditar muito nelas. Não sei por que é preciso fazer tanto esforço para que as pessoas fiquem felizes em olhar pra elas mesmas. O que parece faltar é isso: olhar a si. Lançar o olhar. Ter a coragem de. Olhar.
O que os alunos querem? Reconhecerem-se? Distinguirem-se? Saber quem são? Saber que é preciso o outro para que se reconheça a si, e, mais, reconheça-se sempre novo, sempre em mudança, sempre estrangeiro?
O que é que eu quero? Reconhecer-me, também, em mim, ou em alguém?
Sinto falta da luz toda que minha mãe tem e que ela trouxe para cá enquanto estava comigo. Talvez nem sinta falta, mas só esteja pensando nisso porque ela está brilhando aqui ainda. Talvez nem esteja pensando nisso, mas constatando a presença dela.
Há uma mesa de papéis que ficaram sem caixas e roupas esperando para serem guardadas. Coisas da casa. Ordenar para desordenar. É muito curioso isso.
Ontem vimos os vagalumes. Os bichos. A tarde caindo. Aquele silêncio todo, com ventania. Você no vento, na água, você em silêncio, com os vagalumes. Você é sempre lindo.
Há ainda duas toalhas penduradas, o que me faz lembrar que você estava aqui comigo. Tudo o que vale a pena vem em duplo, estava em Berkeley em Bellagio. Tudo o que vale a pena vem em duplo. Tudo o que vale a pena vem em duplo?
Minha cabeça não doeu mais, eu te disse. É verdade. E eu estava precisando do que eu fiz hoje: fui dormir. Pensei. Fui dormir. Pensei. Chorei também, porque acabo sempre chorando. Mas aí eu tomo um banho, dou uma risada, e vou ler.
Eu estava esperando um acontecimento, na verdade o que eu tinha que buscar era um pouco de paz. E ela veio. Ela só estava em mim o tempo todo, e eu sem conseguir alcançá-la. O acontecimento não trouxe a paz, apenas apaziguou e fez pensar. Pensar que nem sempre se acredita muito no que se faz, e isso não é grave. Pensar que talvez sonhar com uma carreira seja uma bobagem. O que de fato importa? Modificar-se.
Então vou ali na água.

Sábado, Setembro 12, 2009

Mais uma da Folha de que gostei bastante. Aliás, gosto muito do Moacyr Scliar.
São Paulo, segunda-feira, 07 de setembro de 2009




O congestionamento e o espectador
MOACYR SCLIAR



O carreteiro olhava a cena, sem entender. Quem eram aquelas pessoas? Certamente era gente importante



São Paulo apresenta tráfego congestionado no feriado prolongado do Dia da Independência.
Folha Online
SEGUNDO nos mostra o quadro "O grito do Ipiranga", de Pedro Américo, a proclamação da Independência teve um espectador. O único, aliás, dentre os moradores da pouco povoada região.
Era um carreteiro. Conduzindo sua carreta, puxada por bois, ele vinha vindo pela estradinha, entoando uma melancólica canção, quando, de súbito, viu surgir à sua frente um grande grupo de cavaleiros, homens trajando roupas ricamente decoradas e montando soberbos cavalos. Arreda, gritou um deles, e o carreteiro, intimidado, tratou de tirar a carreta do caminho, instantaneamente congestionado: outro grupo de cavaleiros se aproximava. À frente deles, um homem ainda jovem, de chapéu e com uma elegante casaca.
Detiveram-se, os dois grupos, e um dos homens entregou ao jovem cavaleiro uma carta. Sem apear do cavalo, ele abriu o envelope, leu a carta, ficou um instante em silêncio e depois, puxando da espada, bradou: "Independência ou morte!". Ao que o grupo todo prorrompeu em aplausos.
O carreteiro olhava a cena, sem entender. Quem eram aquelas pessoas? Certamente era gente importante, mas ele, homem simples, voltado exclusivamente para as lides do campo, não tinha a menor ideia de quem poderiam ser aquelas pessoas.
Suspeitava que tinha presenciado um episódio importante, um episódio que teria, talvez, profundas consequências. Mas o que, mesmo, teria acontecido? "Independência ou morte", bradara o homem, que, claramente era o mais importante daquele grupo, mas o que significariam aquelas palavras? Bem que ele perguntaria a algum dos cavaleiros, mas não tinha coragem para tanto. Nem houve tempo para isso: minutos depois eles seguiam o seu caminho. O homem trouxe de volta o carro de boi para a esburacada estrada, agora deserta, e seguiu em frente.
Já estava anoitecendo quando ele chegou à casa, um ranchinho de pau a pique na beira do caminho. Entrou, e ali estava a mulher -rodeada pela filharada (cinco crianças, a maior de dez anos)- cozinhando. Como foi o seu dia, ela perguntou.
Bem, disse ele, e pensou em contar o que tinha visto: encontrara um grupo de cavaleiros e um deles, depois de ler a carta que lhe havia sido entregue, puxara da espada gritando "Independência ou morte". Mas desistiu. Se ele não entendera o que havia se passado, ela também não entenderia. Além disso, estava muito atarefada, preparando o ensopado, e ele, morrendo de fome, queria que ela terminasse de uma vez.
Presenciara alguma coisa importante? Talvez sim, mas não tinha a menor ideia a respeito. Em relação ao mundo, e ao Brasil, ele era apenas um resignado espectador. De mais a mais, não queria fazer especulações a respeito. Queria apenas comer, porque estava faminto, e deitar no catre, porque estava cansado.
No dia seguinte, como de hábito, estaria na estrada, transportando cana em sua carreta. A longa e tediosa jornada de sempre. Mas, pelo menos, ninguém lhe diria para sair do caminho. Que, pelo menos, não estaria congestionado por desconhecidos cavaleiros.



MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.
moacyr.scliar@uol.com.br
Da Folha, que recebi por email.
São Paulo, domingo, 06 de setembro de 2009

Collor agora integra time dos "imortais" que não se destacam por seus livros

RODRIGO VIZEU/MATHEUS PICHONELLI
DA AGÊNCIA FOLHA

Ao ser eleito para a Academia Alagoana de Letras na semana passada, o senador Fernando Collor (PTB-AL) passou a integrar o grupo de "imortais" que se destacaram mais pela atuação política do que pelos dotes literários.
Autor de mais de 30 obras, o premiado escritor Ignácio de Loyola Brandão esperou 42 anos após lançar seu primeiro livro para se tornar acadêmico em São Paulo. Mas se para os escritores em geral o caminho para a imortalidade é longo, para Collor, que jamais escreveu um livro, o critério para integrar a casa que já abrigou Jorge de Lima e Aurélio Buarque de Holanda foi mais generoso: levou em conta artigos, planos de governo e até discursos.
É comum a presença de políticos nas academias, apesar do pouco entusiasmo dos leitores por suas obras. Na ABL (Academia Brasileira de Letras), três ex-presidentes já usaram o fardão que um dia vestiu Machado de Assis e Guimarães Rosa: Getúlio Vargas, Aurélio Lyra Tavares -que integrou a Junta Militar de 1969- e o ainda imortal José Sarney (PMDB-AP).
Autor de "Marimbondos de Fogo" (1978) e "O Dono do Mar" (1995), Sarney foi eleito em 1980 sucessor de José Américo de Almeida, um dos pais do regionalismo. Sarney é "imortal" também na Academia Maranhense de Letras, onde tem a companhia de seus irmãos Ivan e Evandro.
Na ABL, Sarney é colega do senador Marco Maciel (DEM-PE). O pernambucano -imortal também na Academia Pernambucana- tem quase 30 obras, a maioria publicada por órgãos oficiais, mas seu nome não aparece nas principais lojas virtuais.
Outro duplo imortal é o ex-senador Jarbas Passarinho -autor de "Hamlet Revisitado" (1995) e "O AI-5 é Transitório" (1977). É acadêmico pelo Acre, onde nasceu, e pelo Pará, onde foi eleito senador. Na academia acriana, tem ainda como colega o senador Tião Viana (PT-AC).
No caso de Ronaldo Cunha Lima (PSDB), acadêmico da Paraíba acusado de tentar matar um adversário, a imortalidade veio com "150 Canções de Amor e Um Poema de Espera" (2005). O time de ex-governadores conta ainda com Lúcio Alcântara (Ceará) e João Alves (Sergipe).
O primeiro escalão do governo Lula também está representado: o ministro Patrus Ananias é membro da Academia Mineira, que já abrigou Tancredo Neves.

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

você aí parado também é explorado!

esqueci de contar outra coisa da bia.

primeiro da sua frase, que estampa o título desse post.

segundo.

é que a gente estudava de madrugada. muitas vezes a gente mais conversava do que estudava e, se eu estava interessada em literatura acabava discutindo história da arte. se eu tinha que fazer um trabalho ficava era ouvindo sobre história dos annales. além dos planos de invasão de reitorias e do porquê que o ichs era um instituto meio esquecido da ufop. havia também as histórias fabilarabulosas e miracolantes de bia, que, para a surpresa e felicidade de todos, foram todas confirmadas como verdadeiras, ainda que se mantenha um pouco de suspeita de todas.



e um dia desses, olha, juro que fumarei um charuto com você, no posto de gasolina de frente da boate, por volta de cinco da manhã. ouvindo mutantes, claro.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

bia me escreveu aqui no blogue, e eu fiquei tão feliz por ela ter aparecido, porque eu sinto saudade demais dela, das meninas, da época em que moramos juntas. viu, bia, eu tb sinto muita saudade!
então demorei um pouco a manifestar qualquer coisa porque eu precisava achar essa foto. sim, essa que coloquei aqui. porque fora o dia em que dançamos com as saias-feito-vestidos, o dia que eu só de lembrar rio sozinha é esse aí do sanduíche na Estela.
a gente vivia comendo gororoba. algumas vezes almoçávamos bem, em outras comíamos o que aparecesse - pão com chuchu e cenoura, coxinha com arroz e feijão, feijoada enlatada, e por aí vai. o melhor era a conta no reservado - a mercearia, bar, restaurante, lanchonete, secos e molhados da Estela. então tudo o que a gente queria a gente corria e buscava lá. aí teve esse dia, queríamos sanduíches, mas a Tatiana, que ajudava a Estela, já tinha ido embora, e a Estela, morrendo de preguiça de fazer sanduíche pra gente, falou que se a gente quisesse mesmo, que a gente mesmo fizesse. e fomos pra chapa. lembro que o grande vacilo foi ter deixado os ovos pra fritar por último. lembro também que nesse meio tempo em que estávamos lá operando a chapa, apareceu um sujeito que pediu um sanduíche, e fizemos um pra ele também.
lembro que a Estela chamava a gente de "coisinha". chega Estela: "ô coisinha, o rapaz pediu um sanduíche aqui, faz aí o sanduíche pra ele, pro outro cara aqui." aí pegou. era o sanduíche "do outro". ficaram caprichados, todos. gostosos também. e o mais engraçado foi ficar no meio da bagunça que era lá, uma mistureba de maquinário pra fazer de tudo: sanduíche, pizza, frango, almôndega, e sei lá mais o quê.
uma pena foi que gabi não apareceu - foi ela quem tirou a foto.
lembro ainda outros episódios engraçados do reservado. fomos lá um dia à noite pra pegar sei lá o quê. cheio de gente, a Estela sozinha. vem Estela "ô coisinha, me ajuda aqui, o rapaz pediu uma porção". vai a gente fazer uma porção de palmito com azeitona pro sujeito, que pediu pra acompanhar uma dose de, se não me engano, natu nobilis. e acho que era esse cara mesmo que, ao descobrir que morávamos na república ali perto, contou que ele era garçom de um bar em mariana e que já tinha "conhecido" uma já ex-aluna da república. não teve zoeira melhor com a ex-aluna. porque depois da história de charles, "the man of the water" (que merda), teve a história de varli, ou varlei, ou varlan, o garçom.
e a Estela quando vendia alguma coisa pra gente e ficava com vontade de comer a tal coisa, ela pedia pra gente fazer e levar pra ela. e a gente levava.
fora o reservado, só o corujão mesmo. ou o caem. ah, são histórias demais. coisas felizes de se lembrar. coisas engraçadas demais. que só voltam assim. com a gente reescrevinhando. recontando. rememorando. pra elas não ficarem perdidas por aí. pra elas ficarem bem dentro da gente. pra elas então lembrarem a gente de que a época nossa foi tão absurda de boa que às vezes até parece mentira. e não é.
bia, um beijo!

Domingo, Agosto 16, 2009

eu gosto de ser eu assim, por escrito. minhas palavras mostram (ou escondem) as coisas que eu tenho certeza vou demorar a dizer. as palavras ditas engasgam, mas as escritas saltam.
um brinde às palavras que, ainda que em estado de dicionário, podem extrapolá-lo e fazem-se, ainda que em desvios, as setas e as flechas certeiras, doce veneno nelas impregnado, para o bem ou para o mal, que acerta justo onde o olho e o coração alcançam, para que se cale (ou se alimente) o anseio, meu desejo.
eu sou, viva, palavra.

Sábado, Agosto 15, 2009

provisório ou improvisado.

Queria ter você aqui, no quarto ao lado, desenhando seus mapas. Eu estaria entre meus papéis e a escrita caótica de um texto que eu suponho já terminado mas sei que não está. Venho há meses tentando esconder de mim que não quero terminá-lo, mas religiosamente minuto a minuto penso que o estou terminando, o estou terminando, mas isso de fato não acontece.

Agora penso que irei terminá-lo, exteriorizá-lo, ou exterminá-lo, se juntar pedaços dos verbos. Sei que depois de um julgamento ele estará pronto para ir para o lixo, para exercer o seu papel de inutilidade, de a nada servir. Não entendo o que me motiva a terminá-lo que não seja vaidade, a campeã na lista dos meus pecados, constatação que me deixa triste.
Se você sentisse fome, vontade de banho, de cantar uma música, de deitar ou pedir colo, você apareceria simplesmente, pés no chão talvez. Me gritaria do outro lado da parede, se precisasse fazer barulho. Eu gritaria de cá, para desconcentrar-me e descansar um pouco, coisas de que de tempos em tempos necessito muito fazer.
Não gosto de marcar de te ver. Não gosto de ficar te esperando, vendo as horas. Queria nem pensar nas horas, no lugar, se limpei ou não limpei a casa, se há meias limpas para o caso de você pedir. Queria que você simplesmente me habitasse, fosse e viesse, a transitar por caminhos que em alguns trechos coincidiriam com os meus, cotidianamente, na simplicidade das coisas sem previsão, sem arranjo. Ver, encontrar, bom dia, boa tarde, boa noite, vamos dormir, vamos dançar, vem comigo, comprei laranjas.
O que desejo é apenas estar por perto, mais vezes por dia, ao alcance das palavras pensadas, você me esperando ou não, você reparando ou não.

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

um poema sem título para um motivo qualquer.

as emoções estarão esperando para serem tocadas
(leve ou bruscamente)
para logo se dissolverem ao mais brando toque dos dedos,
da pele,
do corpo que se joga.

tal qual um desmemoriado
busco-as
pela egoísta expectativa da repetição.

11/08/09. vanessa soares de paiva. 18:32h.
eu gostava de engenheiros do hawaii. eu não sei o porquê, eu gosto dos intertextos deles, mas acho que tudo se consolidou quando eu escutei filmes de guerra, canções de amor, que é um disco lindo demais. eu conhecia outras coisas deles, mas esse disco me emociona até hoje. era quase 97 e meu pai comprou um som novo lá pra casa, um som que ainda está lá, um som mto bacana. aí veio ele com uns cedês, e um deles era o filmes, que ele comprou pq eu já ouvia os outros, como a revolta dos dândis, ouça o que eu digo, não ouça ninguém, alívio imediato, e tal. do filmes, a minha música era mapas do acaso. e o engraçado é que ainda hoje (acho que eu não mudei muito não, haha) eu sou fascinada por terras, distâncias, viagens, percursos. e o acaso, claro. eu gosto do aleatório, eu deixei há um tempo de pensar tão rigidamente no que vai acontecer. às vezes a paranóia volta, talvez porque eu sinto o tempo passando, e fico com medo de ficar muito dentro de mim e pronto. quero a expansão, quero os mapas mas quero também o acaso. ainda me sinto muito presa dentro de mim, com medo das coisas. são âncoras que eu mesma crio, âncoras com que eu me afundo, e fico lá, com meus silêncios, esperando alguém me puxar de volta, para a borda, para o ar, para a luz do sol, para o vento, a música do dia, a música de todo dia. a música que não para de tocar. a música da vida de verdade, fora do computador, fora dos textos que se cria ou que se é forçado a criar, fora, do lado de fora, sem concha nenhuma.
olha aí. se rolar, escuta.

Mapas do Acaso
Humberto Gessinger

não peça perdão, a culpa não é sua
estamos no mesmo barco e ele ainda flutua
não perca a razão, ela já não é sua
onda após onda, o barco ainda flutua
ao sabor do acaso
apesar dos pesares
ao sabor do acaso... flutua

então, preste atenção: o mar não ensina, insinua
estamos no mesmo barco, sob a mesma lua
no mar, em marte, em qualquer parte
estaremos sempre sob a mesma lua
ao sabor da corrente
tão forte quanto o elo mais fraco
ao sabor da corrente... sob a mesma lua

âncora, vela
?qual me leva?
?qual me prende?
mapas e bússola
sorte e acaso
?quem sabe (?) do que depende?

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Ninguém pediu, então eu divulgo.

Conheci Josué quando estávamos fazendo concurso na UFV.

Bebemos no Leão, trocamos sites de download de rock progressivo e conversamos sobre Claudio Manuel da Costa, então o tema da prova didática e sobre as nossas escolhas - mais palavras e poemas e ventania verborrágica do que uma proposta didática coerente, coesa e bem definida. Nenhum de nós passou na prova.

Josué apresentou-nos ainda a cachaça Terra Brazilis (Brasilis ou Brazilis ou Brazillis?), aprovadíssima por todos.

Josué estava pelo Triângulo querendo voltar pra Beagá (fraga?), e de fato voltou. Agora ele anda distribuindo por aí um boletim, o Artistas Frustrados, que recebi faz alguns dias.

Gostei da estatística que ele lançou: "90% da população mundial é composta por seres humanos artistas frustrados. Os outros 10% são os artistas profissionais."

Se frustrados ou não, pelo menos insistentes são esses 90%. Eu estou entre esses aí.

Uma outra coisa de que gostei muito foi o poema assinado por Pablo Gobira, também presente no boletim:


O homem industrial é carente.
Carente de imaginário
no mundo das imagens.

[Pablo Gobira]


Eu fiquei pensando muito a respeito desse poema. A carência de imaginário poderia até ser a grande responsável pela sem-graceza da maioria das coisas - ou pela "medianice" das opiniões por aí, das publicações, o nível informativo das notícias a que assistimos/ouvimos/raramente lemos -, e pela prostração que assumimos diante do que poderia provocar as mais diversas coisas, tal como a ira, o descontentamento, ou a alegria pura, puríssima.

Titãs em sintaxe quebrada: é, eu não quero só comida. Quero a vida. A diversão e a arte.

Façam contato e recebam o boletim: osartistasfrustrados@gmail.com

Outros versos aqui ressignificados, interpretados por Secos e Molhados:

Eu não sei dizer
nada por dizer
então eu escuto

Eu só vou falar
na hora de falar
Então eu escuto

Fala!

Quarta-feira, Maio 27, 2009

Preciso que me digas a palavra que procuras. Uma pista, sinal, rastro, um til. Preciso que me digas. Não sei de palavras, não as domino. As palavras saltam de mim, avessas à minha ordem. Mas também indefesas, ingênuas, pois não as sei combinar. Elas vão, desvairadas, procurar um vão: ouvido, lá longe, bem longe, na curva, no bueiro.
~~
cata uma palavra. sussurra bem calmo aqui pra mim, até eu repetir todos os sons desse presente. sussurra quentinho até que eu feche os olhos. sussurra. bem de perto. bem aqui comigo.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

não, não, não me movo de modo insistente, rápido, sôfrego, quando me escrevem "urgente". não, isso não me comove.

me comove a urgência de saber preciso algo ali imediato, mas que não se sabe bem o que é. quando parece ser preciso mudança, mas não se sabe por onde chegar ao início das questões, nem até as suas finalidades e finalizações (existem?). me comove a confusão provocada em si.
quando leio "urgente" encolho os ombros e espero novo sinal da urgência e da vaidade das vontades, rindo-me por dentro por conhecer ou por até quase que adivinhar as respostas dos outros.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Quanto desrespeito ao nosso patrimônio!






Crédito das fotos: João Carlos de Souza Gonçalves. Itabira-MG.
A locomotiva das fotos faz parte do complexo da Praça do Areão, na entrada principal do município de Itabira-MG, a 110 km de Belo Horizonte. A locomotiva foi utilizada pela Vale no período de 1945 a 1960, e então foi colocada na Praça, que à época era o jardim do escritório central da Vale (ex-CVRD), prédio que ainda se encontra no local e que hoje pertence a uma instituição de ensino da cidade. O jardim podia ser visitado, mas era cercado por altas grades, atualmente já retiradas do local. Na Praça do Areão são realizados vários eventos como shows e feiras livres, e também lá acontece grande parte da programação do Festival de Inverno, muito tradicional na cidade. Há um imenso gramado e um jardim muito vistoso, que enfeitam a entrada da cidade e também é um lugar ótimo para passear e descansar.
O que entristece a nós, itabiranos, é constatar o desrespeito ao patrimônio que é nosso, e a presença de pessoas que destroem um símbolo da cidade. Mesmo aqueles que discordam da maneira como a Vale atua na cidade sabem que a grande parte da renda de Itabira é gerada pela empresa. Isso ainda não justifica a depredação. É preciso que seja reforçada a vigilância da praça, mas, mais importante do que isso é a educação das pessoas, a sabedoria para distinguir que o que é nosso não pode ser destruído.
Fiquei muito triste ao receber as fotos que o meu amigo João Carlos está divulgando, essas que coloquei aqui no blogue. Quando criança, brinquei muito na Praça do Areão e adorava entrar na locomotiva (era o "trenzinho", e quando eu ia lá sempre levava um apito, que era o "apito do maquinista"). A Praça era também caminho de uma das escolas em que estudei, e passei várias tardes lá com meus livros e meus amigos. Vários itabiranos e turistas têm histórias lá, certamente.
Vamos nos mobilizar para que seja providenciada a recuperação da máquina!!!
Abraços a todos.
encontrei andré góes e sua trupe em um bar em ouro preto. fazia quatro ou cinco anos (nas contas dele) que não nos víamos. eu conheci andré em um bar, não lembro qual, mas possivelmente foi no barroco. lembro que qdo conheci andré ele entrou gesticulando muito para convidar as pessoas para o seu espetáculo, "carta livre e ritual", que aconteceria em seguida no museu casa guignard. fui. depois bebemos juntos muitas e muitas outras vezes, nesse período em que ele ficou por ouro preto. até que ele saiu por aí com seus espetáculos e seus projetos. andré é assim. se você o encontra, ele conta primeiro todos os projetos dele em andamento (pelo menos uns vinte, porque ele tem a calma e lenta hiperatividade dos malucos). um desses me fez dar longas gargalhadas. ele falou que está botando pra frente em são paulo um coral só de travestis. eu perguntei: andré, por que travestis? e ele: meu, você marca o ensaio, todas vão. são hiper presentes. e o melhor de tudo, claro, é que elas têm um vozeirão! [e ele repetia, repetia: um vozeirão! um vozeirão que você tem que ouvir!] quando você for a são paulo, vou te convidar pro ensaio com elas. você vai adorar.
ai, andré, só você mesmo.
conheça andré góes e a cia. invisível.

Segunda-feira, Abril 27, 2009


Quero ser parte de um mundo que não escolhi
Quero ser alvo de um desejo que não sinto
Quero ser direção de mãos e pés que não guio
Quero ser o que está entre uma superfície qualquer e um calor que não é o meu
Quero ser um sim

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Como em dia comum, em dia sobre os dias, festejo

Festejo solitária o fim dos barulhos, início de madrugada e as solidões de céu escuro, por vezes azulado, escuro, céu de solidão, céu de ensimesmar-se

Festejo

Porque acabaram-se as manhãs, porque as manhãs já vão longe lá do outro lado do mundo, lá do outro lado onde nem posso ver, lá estão elas, as manhãs loucas, as manhãs ensolaradas, para os outros, não para mim

Lá estão as manhãs enfumaçadas, as manhãs em aspereza, o dia prestes a começar

Para os outros, sempre a começar


[vanessa soares de paiva. sem título. 03/10/2008]
Só tenho um pedaço de mapa

Não tenho solução


Quero uma linha de alcance, uma mira

Que me faça tocá-lo em clique, em envelope, em onda eletromagnética


Prometo-te: suas promessas são as minhas.

Prometo-me: sem outras promessas que não você e eu.


[vanessa soares de paiva. sem título. 17/02/2009]

mistérios sempre hão de pintar por aí.


nostalgias idem.


li ontem mario benedetti que, a respeito da situação de desexílio - benedetti é um intelectual uruguaio que criou este vocábulo para nomear o retorno dos exilados, e para chamar a atenção para o problema da volta, que pode ser tão difícil quanto o da partida, ou talvez até mais complexo -, afirma que pode haver uma contranostalgia, ou algo como "a saudade daquilo que não era meu e que ficou para trás, pois agora estou de volta à minha terra" (em minhas porcas palavras).


ouro preto tem um ímã engraçado. as pessoas voltam. e quando passam por aqui ficam confusas. não sabem do que sentem saudade. ou se a saudade daqui é boa porque se está aqui. não se sabe, enfim.


para os que não sabem do que tem saudade, deixo os links dos vídeos de duas músicas do travis que costumávamos ouvir gabi tocar na varanda, normalmente após o almoço, em tardes longas: sing e flowers in the window. São bonitinhas e felizes. Oh!


cantar junto? ok, computer.


Sing


Baby, you've been going so crazy

Lately, nothing seems to be going right

Solo, why do you have to get so low

You're so... You've been waiting in the sun too long

But if you sing, sing, sing, sing, sing, sing

For the love you bring won't mean a thing

Unless you sing, sing, sing, sing

Colder, crying on your shoulder

Hold her, and tell her everythings gonna be fine

Surely, you've been going to early

Hurry, cause no one's gonna be stopped

But if you sing, sing, sing, sing, sing, sing

For the love you bring won't mean a thing

Unless you sing, sing, sing, sing

Baby, there's something going on today

But I say nothing, nothing, nothing, Nothing, nothing, nothing, nothing




Flowers in the window


When I first held you I was cold

A melting snowman I was told

But there was no-one there to hold before I swore that I would be alone for ever more

Wow look at you now

Flowers in the window

It's such a lovely day

And I'm glad you feel the same

Cause to stand up, out in the crowd

You are one in a million

And I love you so

Lets watch the flowers grow

There is no reason to feel bad

But there are many seasons to feel glad, sad, mad

It's just a bunch of feelings that we have to hold

But I am here to help you with the load

Wow look at you now

Flowers in the window

It's such a lovely day

And I'm glad you feel the same

Cause to stand up, out in the crowd

You are one in a million

And I love you so

Lets watch the flowers grow

So now we're here and now is fine

So far away from there and there is time, time, time

To plant new seeds and watch them grow

So there'll be flowers in the window when we go

Wow look at us now

Flowers in the window

It's such a lovely day

And I'm glad you feel the same

Cause to stand up, out in the crowd

You are one in a million,

And I love you so

Lets watch the flowers grow

Wow look at you now

Flowers in the window

Its such a lovely day

And I'm glad you feel the same

Cause to stand up, out in the crowd

You are one in a million

And I love you so

Let's watch the flowers grow

Let's watch the flowers grow



[e o aniversário de treze anos das Intocáveis está chegando...]

Quarta-feira, Abril 01, 2009

quem quer ser um milionário?


é, esse filme me pegou. por vários motivos. primeiro porque adorei a movimentação dele. os quadros. ainda mais a história. os recortes. as narrativas embrenhando-se. fiquei pensando no romance a partir do qual foi escrito o roteiro do filme, e me animei a procurá-lo, mas só depois que o turbilhão aqui passar eu vou ler.





é, esse filme me pegou. primeiro porque trata de trajetória. e esse tema me agrada ao extremo. eu amo assistir a trajetórias. travessias. viagens. passagens. deslocamentos. eu gosto de falar sobre a vida, eu gosto da vida, eu gosto de ver as pessoas, de andar à pé, de conversar com todo mundo. eu gosto muito. gosto das coisas de verdade, das coisas transparentes, das coisas que estão ali berrando porque existem. é disso que eu gosto. eu gosto de sentir as coisas. as pessoas. porque é tudo ao redor forte demais. é tudo forte. por isso às vezes podemos nos sentir pequenos. mas essa fortaleza das coisas tem mais é que nos fortalecer também, e não o contrário.





eu digo. minha mãe não completou a escola. ela é maravilhosa, uma pessoa espetacular. e não sou a única a pensar isso. ela deve ser uma heroína na identidade secreta dela. essas assim cheias de superpoderes e ninguém sabe. mas tem esse negócio de não ter estudado muitos anos. já ouvi dizerem isso dela. e daí? acaso escola constrói caráter?





foi isso que eu vi em "quem quer ser um milionário?". pois o garoto do filme não teve escola formal, mas escola de viver. e com os ensinamentos que sua trajetória trouxe para ele, ele conseguiu vencer as etapas do programa de tevê - que seria um equivalente ao "show do milhão" - diante dos olhos estupefatos de quem não conseguia ver o menino, mas o favelado, o pobretão, o marginal, e superou a todos, para conseguir estar com quem mais desejava.





é, esse filme me pegou. quero vê-lo de novo.

rio e também posso chorar


sou fascinada por gal costa. uma das músicas de que mais gosto na sua voz é hotel das estrelas. daí uma vez, não sei mais quando, estava eu em casa de Lucília e Romero vem falar sobre os arretados, chegamos até gal. e aí ele vem me falar sobre o Le Gal, que é um disco excelente, ele inteiro é mesmo divino maravilhoso. e claro chegamos a hotel das estrelas. à época pareceu engraçado, hoje é mais enigmático, pois um dos compositores de hotel é duda machado, hoje professor de literatura da ufop e tradutor, com quem convivi em meus tempos de graduação e agora de novo. duda não fala sobre ele próprio, tampouco sobre seus tempos de outrora, mas um dia alguém chegou num final de aula com uma foto de caetano cabeludo, meia dúzia de sorridentes e ele lá, o duda. duda escreveu livros de poesia, trabalhou como editor por muitos anos e há cerca de dez está em belo horizonte/mariana. tive uma série de conversas com ele, pessoa que muito admiro. uma vez ele me disse: continue, continue, e eu falava sobre o noll, e ele ouvindo, dizia que só conhecia "bandoleiros", mas que era para eu escrever, escrever muito. um dia cheguei pra ele com uma entrevista do carlito azevedo que saiu na cult em 2001, ou 2002. cheguei e "duda, olha só o que saiu na cult". ele olhou assim "ah, carlito, carlito é ótimo, não é?". e carlito azevedo dizia que duda machado é dos maiores poetas que ele havia conhecido. e duda ali, presente para os desavisados, com o sorriso dele de todo dia e os olhos pequenos.também alguém (já no centro de estudos literários, onde passei metade do meu curso) apareceu com "rosa tatuada", poema de duda que ficou bastante famoso, e nenhum de nós conhecíamos. o fato de não conhecermos não é espantoso, mas espantoso é saber que ali estava um poeta de força por nós inimaginada que descobríamos por nossos meios, e ele continuava com seu jeito, impassível, tranquilo, observador. hoje ouvi hotel das estrelas e foi inevitável lembrar a última conversa que tive com duda, há umas duas semanas. eu estava escrevendo no original que deixaria no xerox a referência do livro, e a sala estava mal iluminada. chega duda dizendo que em breve sérios problemas de vista seriam detectados em pessoas que estavam frequentando aquela sala. e eu, que já uso óculos, disse assim que a próxima etapa seria trocá-los por lunetas. e ele: cuidado, que pode ser uma luneta mágica(*).



Hotel das estrelas(Jards Macalé e Duda)

Dessa janela sozinha

Olhar a cidade me acalma

Estrela vulgar a passar

Rio e também posso chorar

Mas tenho os olhos tranqüilos

De quem sabe seu preço

Essa medalha de prata

Foi presente de uma amiga

Sobre um pátio abandonado

Em doze quartos fechados

Profetas nos corredores

Mortos embaixo da escada

Mas isso faz muito tempo

No fundo do peito esse fruto

Apodrecendo a cada dentada


Sobre o pátio abandonado

Mas isso faz muito tempo


(*) A luneta mágica é um romance de Joaquim Manuel de Macedo. A aventura do personagem acontece às voltas com um alquimista que dá a ele as lunetas do bem e do mal. A do bem permite que ele veja apenas o lado bom das coisas. A ruim, bem, é o contrário. Há uma terceira luneta, mas não vou contar a história.

Obrigada, Duda!

Sábado, Fevereiro 28, 2009

carnaval passou, eu não vi - estava no mato.

mas agora o ano começou de fato.

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

e hoje é sexta-feira treze!
e daqui a cinco meses será o dia do róque!
à medida em que volto a ler clarah averbuck penso mais em mim. aquela coisa irritante e egocêntrica dela deixa a gente irritante e egocêntrica também.
fico intrigada com as trajetórias das pessoas, sempre, talvez por temer a minha (e a gente sempre teme por não saber, claro), e a trajetória de clarah me chama a atenção porque ela decidiu escrever e foi construindo as coisas a partir desse desejo.
noll, o escritor que eu estudo (e por uma coincidência - hã? - os dois - clarah e ele - são gaúchos) fez isso também. há pouco li uma entrevista dele em que ele dizia que um de seus romances (agora me perdi, não consigo dizer qual deles) foi escrito em um restaurante. que ele chegava junto com os funcionários, e o pessoal se punha a trabalhar e ele também, em sua escrita. os clientes começavam a chegar e ele parava para observar, depois continuava a narrativa. não, acho que eu não li isso, acho que isso ele falou quando veio a ouro preto. acho que foi isso. mas joão gilberto noll decidiu que pararia tudo e se dedicaria apenas à escrita, pagando o preço necessário para isso - pedindo emprestado, vivendo emprestado, e escrevendo. clarah fez a mesma coisa, por causa do desejo de escrever livros.
eu fico intrigada com essas coisas. não que eu vive a esperar pela situação ideal para as coisas, não é isso, mas isso me intriga porque eu acho fabuloso. parar tudo por causa de um desejo. mas não gosto de ficar dizendo - escrevendo - essas coisas porque as pessoas próximas a mim podem não me levar à sério, não esperar muito de mim ou ainda decidirem não passar muito tempo comigo, por saber que a qualquer momento eu poderia sumir - não é isso, absolutamente.
não, eu não vou sumir. e isso é tão curioso que fui contar sobre o último filme do woody allen que só fui ver ontem - só ontem - que se passa em barcelona, e aí me veio a pergunta: você está querendo ir para barcelona? olha que coisa. não tem nada a ver.
uma vez, há uns 6 anos - acho que já são seis mesmo - eu tive essa experiência de ter alguém e esse alguém me escapar, ir embora, e eu fiquei. talvez depois disso eu não tenha criado lá muitas expectativas de continuidades e longas-metragens, mas isso não significa que eu joguei fora minha super-8 e queira algo sempre menos barulhento. não, eu quero barulho sim. eu quero muito barulho. eu quero coisas intensas. quero coisas verdadeiras e ser verdadeira. comigo e com os outros. comigo e com as pessoas de quem gosto. e pode até ser que meu longa-metragem seja longuíssimo, mas eu não posso viver assim criando expectativas, que elas podem me esmagar ali adiante.
não, eu não vou sumir. estou bem aqui. tenho lá meus fascínios pelos andarilhos, pelos viajantes, pelos que estão em trânsito. e se não fosse assim, eu nem estaria escrevendo meu trabalho de conclusão do mestrado. não estaria mesmo. miriam mesmo me diz o tempo todo que se não houver paixão não se escreve trabalho nenhum. talvez por isso também seja tão difícil terminá-lo. a paixão deve ter prazo de validade, ou vida útil, ou algo assim.
às vezes eu ouço coisas e as acho engraçadas. quando estava já quase saindo de juiz de fora - e nem sabia que isso ia acontecer - , o meu amigo do andar de baixo disse assim pra mim que sabia que o meu negócio era escrever, que sabia que eu queria ser escritora. isso me intrigou e eu fiquei pensando nisso hoje. sei lá. esse negócio de ser escritor envolve uma série de burocracias com as quais não tenho nenhuma familiaridade. acho que as coisas vão acontecendo em seu curso e o que a gente precisa fazer é continuar sempre trabalhando, mas sem perder o espírito criativo-lúdico - acho que há pouco disse algo parecido. eu acho.
o que eu acho é que eu poderia ou deveria entrar mais nos circuitos, mas não tenho lá muita paciência. eu já fui mais caçadora dessas coisas, caçadora de concursos literários, ganhei algumas coisas, uns livros, algum dinheiro, mas aí outras coisas vão acontecendo e a gente vai esquecendo ou deixando apagar. uma pena.
e não sei quanto eu conseguiria abandonar por um desejo. não sei. não tenho essa medida. a gente só tem quando urge.
acho que o que eu mais quero agora é cuidar do meu amor. e é isso o que eu vou fazer.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009


Em 1995 fiz uma oficina de bateria e percussão com nelson soares, do duo mineiro o grivo. com nelsinho aprendi que música poderia ser feita com qualquer coisa, seja pedaço de telha, seja bacia com bolas de gude. e fizemos, sim, muitas músicas, nessa oficina. tivemos direito ainda a apresentação no teatro da fundação cda, em itabira. lembro que marcelo, um itabirano baterista filho do músico poeta marçal, me impressionou muito, pois ele fora da bateria era um sujeito que ´só andava amparado em muletas. e tocava bateria e tinha uma energia doida que só dele mesmo. lembro que nelsinho improvisou com marcelo e gustavo uma peça em que eram os três e um bumbo, no meio do palco. ora eles batiam no bumbo, ora eles batiam as baquetas no ar, e emitiam sons - gritos, palavras, qualquer coisa. era meio fantasmagórico. mas encantador, na minha cabeça de menina de 12, 13 anos.
nessa época - se não foi mesmo em 1995 foi 1994, ou 1996 - eu estava muito envolvida com teatro e joão, um amigo meu de meados de infância até hoje, também estava lá, nessa oficina do nelsinho. foi joão quem me ensinou sobre constantin stanislawski e suas idéias de que o teatro está em toda parte. que qualquer pessoa pode atuar. que a partir da observação das coisas comuns se constroem personagens e histórias.
hoje fiquei pensando nisso porque quando penso em meu envolvimento com música e com teatro e como essas coisas pra mim são muito sérias - embora não seja musicista, não toque nenhum instrumento; embora não esteja mais tão envolvida com teatro, há anos não atuo nem produzo nada (a não ser em sala de aula - que professor tem que ter muita presença de palco, como diria o "pateta" Batista, professor de matemática) - sei que minha vida e o modo como percebo as coisas estão muito atrelados às artes.
eu comecei cedo, e meio pesado, acho. um ano depois dessa oficina d'o grivo, fiz uma oficina com um sujeito chamado eros fresiq, que nunca mais encontrei de novo - embora tenha escrito toneladas de poemas (ruins, péssimos) para ele. e pior: os entreguei. talvez seja por isso nunca mais nos encontramos de novo. mire veja: o sujeito se chamava eros, conhecia muito de música, e inspirava a gente mesmo. na verdade o que eu queria era que meus poemas virassem música, nada mais do que isso. o que eu achei mais legal foi que eros gostou da minha voz e me botou pra cantar.
eu cantava d'oxum, que depois o filho do moraes moreira gravou, e magamalabares, que marisa monte gravou, e tocava uns chocalhos. eu gostava dos chocalhos e dos carrilhões e das marimbas de madeira e vidro. o companheiro do eros, adalton, tinha o próprio spanish guitar. ele não tocava tudo o que o violão espanhol podia fazer, mas tocava bonito. foi adalton quem me mostrou uakti. a oficina foi na casa do brás, um espaço que foi casa do brás, claro, um fotógrafo itabirano, e hoje é espaço cultural. lá na casa tinha um aparelho de som e vários vinis, e um deles era do uakti, e eu não consigo saber qual. lembro a primeira música que ouvi do uakti, num dia em que cheguei uns vinte minutos mais cedo e tinha uma meia dúzia lá já, e o adalton contando o que era uakti, e mostrou uma música, essa música que eu não consigo saber qual. estou baixando a discografia do uakti e à medida em que as coisas vão chegando pra mim eu ouço pra tentar recuperar aquele dia e aquela música, mas ainda não foi possível isso.
eu gosto de lembrar dessa época. eu desenhava e fazia quadros com os desenhos, dava de presente. aprendi uma técnica com nanquim, giz de cera e esponja de aço que eu adorava fazer. claro, eram uns borrões que eu fazia, mas eu gostava da desordem. ainda gosto. talvez eu guarde comigo por muito tempo ainda esse gosto. talvez. dizem que ora a gente cresce. mas crescer como, se as coisas que acontecem vêm mais para matar o que a gente tem de criativo do que fazê-lo rejuvenescer? melhor lembrar, mas, claro, com os pés bem firmes, cravados no chão, e espírito crítico para compreender as coisas ao redor, sem perder aquele riso de canto de boca, de deboche, tão presente na infância e na adolescência.
hoje eu lembrei isso tudo de novo porque jOão me escreveu, e disse assim: "lembra quando eu te disse que para você o céu é o limite?". eu às vezes penso que não compreendo bem o que essa expressão quer dizer, "o céu é o limite". gosto da palavra limite, porque limite pode ser borda, e pode-se estar dentro ou fora, e observar o limite. limite é o nome do primeiro filme do mário peixoto (é esse o nome mesmo?). limite está no nome desse blog. mas o barato do limite é pensar no lugar em que se pode estar, e de onde se pode observá-lo, sim, observar o limite, perceber sua extensão, e sua condição de "lá" e "cá". assim como fronteira. o que é a fronteira para quem está dentro/fora? como estar "fora" das fronteiras? é preciso dizer primeiro onde se está, onde está o olho daquele que observa (e lembro a câmera olho, do vertov), para aí sim falar sobre as coisas. mas as idéias de fronteira, borda, limite, são falhas. facilmente se pode desdobrá-las não mais em barreiras, mas em condição. uma condição de fronteira é uma coisa nova. estar em condição de fronteira é pensar em pertencimento. a que pertenço? estou lá ou cá? posso estar fora?
e o céu é o limite por quê?
joão, obrigada! suas mensagens me deixam feliz e me lembram uma vanessa que continua sonhadora como naquele tempo, boba e romântica como naquele tempo. e você sempre me alertou pra não ser nada disso, que poderia ser muito perigoso. e adianta?


[nessa foto, está toda a trupe da peça "Cuidado, o Vidigal vem aí". e quem conhece o luis, meu irmão, vai tomar um susto ao ver como ele estava pequeno aí nessa foto, com a touquinha do anjo da morte, papel dele na peça. da esquerda pra direita, de cima pra baixo: Nixon, Mitrione, Luis Fernando, João, Helena, Vandercy, Fernando, eu e Karine. lembro ainda que a logo do gam - grupo arte e movimento foi uma das minhas primeiras experiências em corel draw com meu primo marcelo, no prata.]

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

remedy_the black crowes


Baby, baby why can't you sit still?

Who killed that bird out on your window sill?

Are you the reason that he broke his back?

Did I see you laugh about that?



If I come on like a dream?

Would you let me show you what I mean?

If you let me come inside?

Will you let it glide?



Can I have some remedy?

Remedy for me please.

Cause if I had some remedy

I'd take enough to please me.



Baby, baby why did you dye your hair?

Why you always keeping with your mother's dare?

Baby why's who's who, who knows you too?

Did the other children scold on you?

[o jimmy page tocou com eles também. eu gosto dessa banda. e os moços são umas lindezas: cabelo tortinho, magreleza e junkie rules. ui ui ui.]


citas sin nombre


*


tudo é uma questão de manter

a mente quieta

a espinha ereta

e o coração tranquilo


*


esse é o ninho do passarinho, que já nasce voando sem asa


*


eu quero é ver você sorrir às quatro e meia da manhã


*


she comes in colors


*


quem é você pra dizer o que eu devo fazer?

sentir?

pensar?

fumar?


*


quem sabe se é hoje o dia de desanuviar?
*
vou morar no ar!

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009


rainha do mar

mãe d'água

mãe menina

mãe dos mares


molha-me com seu sabor e seu perfume

molha-me com seu canto e seu movimento

molha-me de azul lento e calmo


embriaga-me de ti, Janainaê, com sua bênção