Na minha casa demorou muito a ter um aparelho que reproduzisse LPs. Ouvíamos fitas cassete e o rádio, que nos anos 90 reproduzia loucamente a dance music, e eu ligava, ligava, pedindo Guns`n`roses - e Axl Rose ainda era um cara bonito. Mas ouvir LP era muito diferente. Houve a vez em que troquei um cd do Raul Seixas pelo LP Led Zeppelin III, e voltei cheia de orgulho pra casa, a cogitar que ruídos viriam permear Tangerine, e eles havia. LP que sumiu depois de uma temporada na república em Mariana, assim como meu ímã de A clockwork orange, da geladeira de Juiz de Fora, e minha gata Nina. Lembro que na casa de Fu eu escutava a trilha de O mágico de Oz, The Wall e O papa é pop, indiscriminadamente: era meu gosto musical se formando, algo assim. Lembro que na casa de Fu descobri o que significava a palavra trottoir, li Christianne F. e parte da coleção dele de José de Alencar. Fabrício tinha (e tem ainda) o GLM, que eu escutava, e também costumava trazer pra casa, além de Seventh son of a seventh son, que escutamos ontem mais uma vez. Meu primo Marcelo - que deve ou estar silkando coisas por aí ou em algum encontro de motociclistas, ou casou, não sei, sumiu - me mostrou o Simples de coração e um dia meu pai chegou em casa com Filmes de guerra, canções de amor. Numa viagem a BH com o pessoal da escola, voltamos gritando - e quando fui morar com a Flávia, até nos lembramos disso - a letra de Ouça o que eu digo, não ouça ninguém - eu tinha 15 anos e escrevia poesia, e achava que Além dos outdoors era a minha música favorita, apesar de sentir ímpetos de chorar com Shine on you crazy diamond, Parabólica e Dia branco, também indiscriminadamente. Sweet begônia foi o nome de um projeto meu das aulas de informática e Parabólica está no nome desse blog, mas isso já foi contado em outra captura. Mas, sabem? Toda vez que eu ouço alguma coisa que me remete a histórias das mais antigas, a história volta inteira, e eu me emociono de novo - deve ser eu mesma me ressignificando, me atualizando, um f5 de estado emocional. A música faz isso com a gente, eu acho que até mais que os livros. Quando eu releio um livro ele me diz OUTRAS coisas, já sou eu nova leitora, a se impressionar de outros modos com as mesmas histórias, já percebidas por outros prismas. Mas se sou eu a ouvir o mesmo disco, se sou eu a relembrar as capas do Iron Maiden, quando eu passava e repassava procurando o símbolo da banda, ou tentava desvendar Todos os olhos, meu coração se enche de uma coisa misteriosa, coisa que sinto mas não alcanço, e meu corpo amolece inteiro. Eu recupero em emoção, emoção que já não posso mais tocar, pois meus dedos, esses sim, já caminhando para novas idades, apontam outras direções. Mas meu coração! Ah, coração, que me deixa tonta com suas guinadas pra trás e com o destempo que gasta a recalcular a rota pra dentro de mim. E eu me lembro. lembro ME. Coração que me mostra quem sou, coração despertado por outrem, por um som, um acorde, por um jeito de olhar as coisas que me lembro tão meu, e se eu não recuperasse isso, por pouco não perdia, ou me perdia, pra sempre. E se eu penso via coração, sinto que amor é algo como escutar a procurar ruídos - os próprios, os alheios - com agulha afiadíssima, ouvidos idem, e se encantar com tudo isso, com o amor, tanto!, de novo e de novo e de novo - e no intervalo entre um lado e outro, recuperar o fôlego.
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