há algumas noites, que não sei precisar, tenho tomado ciência (não sei se ainda aperto adoidado os dentes enquanto durmo, Fabrício disse que ainda um pouco, sim, mas estou em tratamento, ao qual não compareço há duas semanas, e gostei de não ter ido, dói menos, mas não sei se é por apertar ou não os dentes, tenho tomado ciência) de poemas inteiros indo e vindo à mente, versos que se desdobram em outros mais longos, e que encaixam e desencaixam, enquanto eu tento descobrir (e ainda não sei) se estou acordada ou dormindo. sei que havia umas palavras enlameadas de verdades, e outras coisas mais ou menos pegajosas, que não consigo recuperar, preciso, para essas coisas, de novos sonos, e novos sonhos. e tive muita matéria para sonhar nos últimos dias. é que sentimos juntos muitos momentos em luz baixa, baíxíssima, e comemos nos horários mais malucos, e dormíamos e acordávamos e saíamos e andávamos e víamos tudo. e nem estávamos tão longe. e vimos a água, andamos por entre as pessoas, e por entre nós mesmos. e percorremos trajetos tão bonitos e tão surpreendentes de tão simples para os olhos, e complexos para o sentir. ver é tão simples, mas perceber!? perceber, sim, sem educar os olhos, porque educar os olhos já é como vemos. temos que voltar à condição do neutro para podermos ver bonito, ver claro tudo. é que em "a paixão segundo gh" clarice lispector me disse duas coisas que quero comentar. que o estado de neutro, e que se deve buscar, é virgem de significado, é pré-significado, é o de antes, o sem palavra, o sem limite. mas se já é neutro isso não seria um limite? ah. e disse também que quando acontecem catástrofes, tristezas, coisas amargas, é porque o mundo e as coisas estão precisando voltar à condição de antes, de antes daquilo, de antes desse jeito, para ser de outro, de novo, ou ser igual, diferente. liberar os olhos para ver nos exige tanto, e nem deveria ser assim. é que esse estado de coisa neutra, de coisa sem nome que eu quero experienciar, acaba pedindo um nome, uma classe, uma categoria, um "curti" ou "não curti". mas por que não ser só experiência? por que a experiência tem que ter um nome, não pode ser apenas sensação? por que as coisas têm que significar pouco, como categoria, enquanto poderiam significar muito, como experiência? porque é um perigo. vejam o que digo: é um perigo a multiplicidade de olhares, porque pode fazer pensar. como é perigoso, isso. e como é lúcida clarice quando diz da volta ao de antes, da volta ao modo certa maneira harmônico, pré-catastrófico, de antes da queda, de antes do abismo. voltar não como um retrocesso, mas voltar como nova viagem, novo percurso que é, e que pode ser também perigoso. voltar para perceber as coisas de novo, e analisá-las, voltar para saber como ir. voltar que é também ir, ir a algum lugar. voltar pode ser grandioso. voltar pode ser sábio. eu voltei. ainda não sei como ir, mas tenho dado agulhadas. tenho ido, também, eu sei, porque tenho feito coisas. para algum lugar estou indo. estou em processo, estamos. e vi, sabem, vi uma máquina de ver. cheia de espelhos. e perdi os poemas todos do entressono, devem estar todos nos espelhos do meu vagar.

4 comentários:
A ciência com você vira arte: artefato!Assim tá no meu blog!
pessoa/palavras maravilhosas. obrigada pela gentileza. você é muito, muito querido!
vanessa, eu também tenho esse problema de apertar os dentes, e faz já uns anos que uso aparelho, tratamento que, espero eu, esteja chegando ao fim! de que jeito você está tratando? beijo!
vou te contar essa história....
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