Milton Hatoum é de fato um escritor fabuloso. Desde "Dois irmãos", que li primeiro, e depois "Cinzas do norte", e o que terminei hoje de manhã, "Relato de um certo oriente", ando impressionada. O último foi o mais colorido, o mais diverso, o mais sensorial, o mais complexo romance que li nos últimos meses. Lembro quando eu ia a biblioteca do ICHS e lá havia "As vozes do romance", de Oscar Tacca, único volume que (até aquele momento) se dedicava apenas a vozes, de fato, sem rumar para conversas discursivas, para as quais havia prateleiras e prateleiras. E eu procurava algo como "As vozes do romance" para entender a construção do romance, antes ainda de querer me embrenhar pelos campos dos significados. E ainda assim esse volume não resolvia o meu problema que, à época, era Cristóvão Tezza e o seu "O fantasma da infância" (e do C. Tezza também li um recentemente, que foi "O filho eterno", muito diferente de "O fantasma...", mas com boa trama e ritmo), e hoje lembrei de O. Tacca porque soube, assim que terminei a leitura de "Relato...", que ele também não ajudaria a explicar a multiplicidade que Hatoum apresenta. "O fantasma da infância" narra histórias fragmentadas, sob pontos de vistas de personagens diferentes, além do narrador. "Relato de um certo oriente" convoca uma narradora a inventar, imaginar um ponto de vista que narrasse aquilo de que ela não poderia se lembrar, e que faz parte da sua infância primeira, até os acontecimentos que ela não viveu (e por isso são convocadas outras vozes). É uma espécie de narradora/documentarista que ao final revela seu papel no romance, mas, como é uma construtora de tramas, e não exatamente se dedica a falar de si (assim eu imagino), não revela seu nome (e houve quem se aborrecesse com isso). O que eu tenho mais gostado ao ler Hatoum são as surpresas que ele revela, e sempre as há, até o final dos romances. E adorei a tarefa de terminar de ler um romance, voltar ao capítulo inicial, e enfim compreendê-lo. Seria essa uma marca do Hatoum ou uma marca de um editor? Bem, isso eu não sei responder. Mas é uma beleza de literatura. Vale realmente a pena conhecer Manaus e suas vozes, que Hatoum nos apresenta, e nos desconcerta, tamanha beleza exaltada diante de coisas tão rotineiras. Obrigada, Milton Hatoum, por encher de beleza meus olhos de leitora.
Dos romances, lerei ainda "Órfãos do Eldorado" e o volume de contos, "A cidade ilhada".
Vale comentar (mais uma vez) que a Companhia das Letras ganhou uma fã da série Companhia de Bolso. O formato é excelente, Companhia! Faça sim livros mais baratos para nós, que gostamos tanto de ler!
Mais um comentário: quem é leitor de João Gilberto Noll, como eu, não se aborreceria com o fato de uma narradora/embrenhadora de histórias que fala tão pouco de si mesma. Ver pelos seus olhos pode nos dizer muito mais, e eu acho que é assim que fez Hatoum.
Só mais um: quando minha mãe viu comigo escrito em letras grandes um volume que trazia "Milton Hatoum", comentou: "É um de cabeça branquinha?". Eu disse "É". E ela, animada por reconhecer o nome: "Mesmo? Eu vi ele na televisão, no 'espaço aberto' , ele tem um jeito manso de falar...".

2 comentários:
Sua mãe está certa: Milton Hatoum não é só bom escritor, ele também é um ótimo contador de histórias.
E pode deixar que a gente ainda pretende lançar muitos livros de bolso! ;)
Mas essa é uma ótima notícia! Obrigada!
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