Sábado, Novembro 26, 2011

Sim, Daniel, estou ranzinza. Cinza. Igual a tantos. É que chove dentro e fora de mim. É que chove muitas vezes por dia, e algumas vezes à noite também. Eu elaboro respostas e acho que as digo, mas não digo, e elas ficam assim comigo, eu achando que todos sabem, ninguém sabe. E volta a chuva. Mas isso é só um preâmbulo.

O interessante de estar constantemente em estado de chuva é que se está sempre cheio de tudo. Umidade 100%. Mais interessante ainda é perceber blocos imensos de coisas pesadas, prestes a desabar, iluminando relâmpagos e atiçando barulhos. A chuva anuncia, chama, alerta. A chuva tem o poder interessante de seduzir uns que se molham a valer, se divertem, gargalham e soltam gritinhos, sentam-se por vezes nas escadarias de praças a esperar a enxurrada que teima descer as mesmas escadas, e a molhar os espaços entre a roupa e a pele, a parecer um banho forçado, que também pode ser sujo, fedido, sabe-se lá o que pode ter na água além de água!, e de espantar outros, que se protegem, muitas vezes em vão, sob superfícies pífias, tolas, mas também às vezes pink, ou xadrez, ou de cabo douradíssimo, lindo na promoção de quinze reais. Mas quando chovo prefiro um lugar único. Prefiro chover até encharcar, inundar, até não caber mais água. E me guardo, enxurrando demônios e angústias, a vê-los ocupando outros espaços, até que cesse a ventania. Mas qual, dura! Dura a chuva, dura a ventania. Tenho que prender fortemente os cabelos, para que fios teimosos não me irritem olhos e nariz, mas deixar os pés soltos, até que estejam à beira de congelar, e ver os movimentos de dedos e a pequena rachadura - sim, sempre há mais espaços a rachar - da unha teimosa que não sara, e cai, e cresce, e racha, dando novo formato ao dedo, nova impressão de branco. E chove. Chove sem barulhos externos. Chove o silêncio, com vontade. Chove o dia a cair, chove a impressão de fome, de fome de dias novos, de fome de outras tempestades. Chove a falta e a sobra. Chove até não mais poder.

O que clareia é o sorriso cheio de margaridas, daquele jardim circular, das músicas dos bítous. É.

3 comentários:

Jean D. Soares disse...

chovo até encher de alegria o peito

Anônimo disse...

Saudade de chover com você!aliás, que saudade de você!
Beijos,
Fernando

Vanessa disse...

Primo, inunda tudo de sorriso.

E, Fernando, saudade sim! Me escreve pra eu te por a par dos encontros em Mariana, e pra vc me contar por onde anda tb. eu te conto: vspaiva@gmail.com

Beijos, queridos!