Sábado, Dezembro 03, 2011

Para ser reescrito.

Essa última noite carreguei os olhos, tirei-os da tomada e eles despejaram memórias, lançando-as ao travesseiro, à parede nua, remodelando a sombra do roupão que se projetava, no cabide improvisado no espaço mínimo. A porta triscou o piso gelado, enquanto eu entrava furtiva, madrugada pelo início, a encontrar o quente dos tecidos, e as sombras, e a parede nua, e o travesseiro. Mas vieram as memórias, impedindo-me o sono. Grande mistura de memórias, que por pouco não me tiram a razão. Pois o que eu via, feito Bandeira via o beco, era o branco, tanto encardido, mas não menos dolorido. O branco que inclusive se toca. Pois houve o momento em que eu beijava os travesseiros, e sentia que o branco começava, e ele se instaurou. O branco começa na falta. Estende-se ao estômago, que não come, mas se atiça. Se come, é pouco o gosto. Não descansa enquanto não torna o de dentro, o de fora, tudo, em imenso ele mesmo. Faz-se às cegas, e ordena que se tente preenchê-lo também às cegas, e em vão, pois o branco não nos permite ver, senão por meio de suas lentes que refletem, mas pouco mostram, e supõem olhos livres. Supõem. E o fenômeno que começa nos olhos vai até a ponta dos dedos, que parecem tocar, mas não alcançam. Que se antes falavam, balbuciam. Até a ponta dos pés, que parecem firmar, mas não se fixam. Que ensaiam o salto, mas se arrastam. O branco nada domina, mas cerceia a liberdade, a iniciativa, o pontapé. Oculta outras cores, que, de tão presentes nele, se fazem, também, branco. Escondi bem as orelhas, tapei os buracos do nariz: sem um pouco de ar, sem asperezas que não a própria vontade de voltar a ter ar. Tapei os buracos dos ouvidos: sem um pouco de som, os anseios por um gemido, uns passos de lagartixa, um voo de mosquito. Escondi bem os olhos: no obscuro de mim, afago o branco. E peço que venha a escuridão.

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